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Zazie no Metrô [Raymond Queneau] #resenha

Cosac Naify 30 de setembro de 2015 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Uma pré-adolescente espevitada e muito, muito desbocada, passa dois dias na Paris da década de 50. Apesar de algumas frustrações – contrariando o título, ela não anda de metrô –, a garota vive momentos aventurescos em uma “pequena grande” jornada pela cidade e pela vida.

O parágrafo acima é apenas o plot da história de Raymond Queneau. Zazie no Metrô, célebre romance e marco literário na época em que foi lançado, está a caminho de completar seis décadas de sua primeira publicação e isso sem deixar de conquistar leitores mundo afora.

Para passar uns dias curtindo o namorado em Paris, Jeanne Lalochère deixa a filha Zazie aos cuidados do tio Gabriel. Empolgada, Zazie não vê a hora de andar de metrô pela primeira vez. Justo naquele dia, porém, o metrô está em greve.

Indignada, a menina resolve perambular sozinha pelas ruas de Paris. A partir daí, uma série de encontros, confusões e absurdos preencherão a trajetória dela, do tio Gabriel e de outros tantos personagens não menos interessantes. Um sujeito esquisito e de muitas identidades, que pode ser um tarado pedófilo, um policial, um guarda ou até mesmo um ator; Turandot, o dono do bar no térreo do apartamento de tio Gabriel; a garçonete Mado Ptits-Pieds; o sapateiro Gridoux; um grupo de turistas guiados por Fiódor Balanovitch; tia Marceline, esposa de Gabriel; Charles, motorista de táxi e amigo de Gabriel; e Laverdure, o papagaio de Turandot, que passa o dia a entoar a frase “Falar, falar, você só sabe fazer isso”.

Garota do interior, Zazie vive na França do pós-Segunda Guerra, é espirituosa e fala de tudo sem medo nem censura. Sua ingenuidade é evidente inclusive na falta de “filtro” ao agir e se comunicar – Zazie abusa dos palavrões e pode ser um tanto malcriada. Dentre seus objetivos, andar de metrô, tomar um copo de “cacocalo” e ter um par de calças “djins”.

Com seu maior desejo frustrado devido à greve do metrô, Zazie embarca em aventuras nada politicamente corretas com o tio e os demais personagens do romance. É neste ponto que as confusões e mal-entendidos têm lugar, e o clima geral lembra aquele do humor pastelão, recebendo pinceladas carregadas de nonsense.

Não espere encontrar previsibilidade e coerência nos personagens e em suas ações; jovens, adultos, homens, mulheres, malandros e policiais muitas vezes não se comportam da maneira como – movidos pela racionalidade – esperamos. Tudo é muito dúbio, inclusive a própria Paris: durante o passeio, não se sabe se o que se vê é a Sacré-Coeur ou os Invalides, ou então o Panthéon.

É durante esse tour maluco por Paris que surge uma questão importante na trama: a real identidade do tio Gabriel. Dizendo trabalhar como vigia noturno, ele tem sua sexualidade colocada em dúvida. O homem que usa um perfume de aroma duvidoso – Barbouze, da Fior – acaba por levar toda a trupe que o acompanha durante o dia pela cidade para conhecer e prestigiar seu trabalho, o verdadeiro. E é assim que todo mundo vai parar numa boate, inclusive nossa garotinha Zazie – mais uma prova de que o politicamente correto passa deliciosamente longe das páginas do livro.



Mas a maior delícia está, sem dúvida alguma, na linguagem singular empregada por Queneau. Em diálogos que beiram o absurdo, as frases surgem com uma espontaneidade marcante, pontuadas por vocabulário oralizado e original. Em contraponto com o refinamento da língua francesa, encontramos o coloquialismo, um linguajar desbocado e até vulgar. Palavras e expressões como “Dondekevemtantofedô”, logo na abertura do livro, “djins”, “pultaquilparil” e “hormossecsual” estão espalhadas em grande número por toda a história, bem como outros artifícios sinalizadores da oralidade – por exemplo, a substituição do “x” pelo “z”, conforme o som da letra é falado na palavra em questão. O que é muito ousado em termos de literatura, especialmente se pensarmos na época em que o livro foi lançado, lá em 1959.

Bem, falando de Raymond Queneau, isso faz todo o sentido. O autor foi cofundador da OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), uma associação fundada em 1960 cujo trabalho se baseia na criação e experimentação de novas formas literárias quanto à narrativa e estilística. Em 1947, Queneau apresentou Exercícios de estilo, obra que reune 99 versões diferentes para um mesmo microconto; em 1961, lançou Cent Milliards de Poèmes, em que cada verso de um soneto é cortado de forma a possibilitar sua recombinação, podendo gerar até 100 trilhões de sonetos com rima e métrica perfeitas. Ou seja, Queneau já brincava com as palavras e com a linguagem bem antes de Zazie.

Portanto, não se deixe enganar ao deparar-se, de início, com uma trama que parece boba e carente de um objetivo verdadeiro. As trapalhadas estão presentes e o absurdo está por todo lado, mas essa pérola da literatura embute nas entrelinhas ares filosóficos e levanta a questão da real identidade de tudo, coisa e gente – como mencionei alguns parágrafos acima, tudo no livro tem aspecto dúbio. Enquanto isso e em um curto espaço de tempo, nossa anti-heroína zazílica amadurece.

Poderia passar a vida a falar desse livro louco e genial. Desta edição então, nem se fala! (Conto um pouquinho sobre ela logo mais, em “Leia porque”.) Mas, sendo mais breve e exata, resolvo terminar tomando emprestadas as palavras do crítico Otto Maria Carpeaux, que figuram na quarta capa do livro: “Zazie? Do caralho!”

LEIA PORQUE...
Humor, confusões e nonsense, tudo temperado com uma linguagem originalíssima e coroado com uma protagonista teen bem diferente do que estamos acostumados. Zazie no Metrô é do caralho mesmo!

Esta edição da Cosac Naify, de 2009, celebra com dignidade os 50 anos da obra. Além do posfácio por Roland Barthes e a tradução de Paulo Werneck, tem esse projeto gráfico que é incrível. As folhas são todas em papel-bíblia – fininhas e com leve transparência – e dobradas ao meio, como folhas duplas; na parte de dentro, impressões de fragmentos de cartazes franceses dos anos 50, apenas parcialmente visíveis no lado externo das folhas, sob o texto. Para saber mais detalhes do projeto gráfico da Cosac Naify para Zazie no Metrô, confiram este link.

DA EXPERIÊNCIA...
Já tinha adoração pelo filme, de Louis Malle, lançado em 1960 – falei dele aqui. Agora, finalmente tendo lido o livro, posso dizer que virei mais fã da história. Foi gostoso encontrar semelhanças e diferenças entre livro e filme, e fui deliciosamente surpreendida com uma trama e personagens nada certinhos no livro de Queneau.

FEZ PENSAR EM...
O Sopro no Coração (Le Souffle au Coeur), filme um tanto polêmico – por conter incesto – de Louis Malle, o mesmo diretor da adaptação de Zazie, que também retrata essa fase difícil da saída da infância. Trailer aqui.

QUANTO VALE?

Título: Zazie no Metrô
Título original: Zazie dans le métro
Autor(a): Raymond Queneau
Tradução: Paulo Werneck
Prefácio: Roland Barthes
Editora: Cosac Naify
Edição: 2009
Ano da obra: 1959
Páginas: 192
Onde comprar: Submarino | Casas Bahia | Livraria Cultura | Shoptime | Livraria da Folha | Amazon (livro físico)

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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