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De fora para fora #3 – Um lugar favorito no mundo todo

Barcelona 27 de agosto de 2013 Aline T.K.M. 15 comentários


Mais do que conhecer novos lugares, em grande parte, a graça de viajar está em descobrir o quanto esses lugares podem me surpreender. É me apaixonar por um local e passar a duvidar que exista lugar mais incrível no mundo. E, pouco depois, descobrir que sim, existe um lugar ainda mais incrível. Nova doce descoberta, acompanhada da certeza quase inquestionável de que provavelmente existe algum outro lugar ainda mais especial, e daquela felicidade interior de saber que ainda serei surpreendida tantas vezes mais.

Quer seja uma cidade inteira, uma praia, a sombra de determinada árvore ou até uma poltrona no cantinho de um café, o que conta não é a beleza do lugar. Diria mesmo que a beleza nem é fator assim tão decisivo. É a ambiance do lugar que o torna especial. Palavrinha da língua francesa, falamos de ambiance para nos referirmos ao conjunto que engloba beleza, decoração, agradabilidade, atmosfera, etc, de um local. Em português, já ouvi falar em ambiência, que, justamente, vem do francês e faz mais jus ao conjunto de qualidades que vai um pouco (muito!) além da simples “atmosfera”.

O cheiro de mar era intenso e uma brisa com gosto de sal penteava a costa. O olhar de Marina se perdeu no horizonte de prata e bruma.
– Este é o meu lugar favorito no mundo – disse.

Carlos Ruiz Zafón, Marina

E aí, viagem vai, viagem vem, dou de cara com aquele que passo a coroar meu lugar favorito no mundo todo. E que sensação ao encontrar esse lugar! Indescritível! Eleger um lugar como o preferido no mundo significa desejar retornar a ele repetidas vezes e, tal como Marina do Zafón, ali desfrutar de um sentimento único. Um lugar singelo onde nos sentimos tão bem como em nenhum outro lugar... no mundo inteiro.
Meu lugar favorito no mundo todo já foi: um café-leitura meio alternativo, uma praia de pedras, uma sorveteria, uma poltrona do Starbucks (!!), um parque todo florido, um banco de madeira à margem de um rio urbano, a Rambla de Mar...
A descoberta de um lugar preferido no mundo todo vem acompanhada de uma ordem: aproveite-o ao máximo. É que, no final, não passa de uma efemeridade; pode durar anos, ou apenas até a próxima viagem ou caminhada. Até que eu percorra mais quilômetros deste mundo tão vasto, até que eu “abra” ainda mais a cabeça, até que conheça um pouco mais das coisas e desta pessoa a quem denomino eu. Durará somente até que me surpreenda a descoberta de um novo lugar favorito, mais celebrado que o anterior, o qual eu acreditei ser “o favorito dos favoritos”.

E aí, só me resta curtir e prolongar o sentimento experimentado sob o sol barcelonês daquele fim de março, enquanto caminhava pelo Parc Güell, meu lugar favorito no mundo todo – até o presente momento.




O que é "De fora para fora"? Saiba mais.


Marina [Carlos Ruiz Zafón]

Barcelona 16 de abril de 2013 Aline T.K.M. 17 comentários


Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, de 15 anos, passa seu tempo livre andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões. É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção do garoto, que logo se aventura a entrar na casa. Dias depois, ao retornar à casa, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos. Os dois passam, então, a tentar desvendar o mistério que ronda uma mulher que visita uma sepultura sem nome, passando por palacetes e estufas abandonadas, e se defrontando com o mesmo símbolo – uma mariposa negra – diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona. Tudo isso pelos olhos de Óscar, que passa a conviver com a falta de eletricidade do casarão, o amigável e doente pai da garota, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. Prepare-se para adentrar uma investigação cheia de mistérios, envolvendo uma intrincada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona, e que teve um fim trágico com sua bela esposa. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido.

Quarto romance do catalão Carlos Ruiz Zafón, Marina teria sido destinado, segundo nota do próprio autor, principalmente aos jovens leitores. Mas não só; e arrisco – de forma nada arriscada, na verdade – dizer que a esperança do autor foi bastante certeira ao desejar que o livro tivesse apelo entre todas as idades.

Sem jamais subestimar o leitor, seja ele jovem ou mais velho, a narrativa é bem construída e a linguagem, madura o suficiente. A singeleza vem na pele dos personagens; os jovens protagonistas vivem as descobertas da adolescência sem macular a inocência da amizade. Tal inocência é, sim, maculada, mas pela própria vida, por um destino desprovido de piedade e favoritismos.

Histórias que fazem de um local um personagem, não raro o verdadeiro protagonista da trama, são por si só encantadoras. Marina presenteia o leitor com uma Barcelona “perdida”, com uma história delicada e misteriosa centrada na parte velha da cidade. As páginas percorrem bairros como Sarriá e o Bairro Gótico (ou Barri Gòtic, em catalão), sem esquecer as famosas ramblas, e lhes confere vida e personalidade próprias. Reside aí uma das grandes riquezas deste livro, talvez a maior delas.

Quando ele entrou no Bairro Gótico, fui atrás. Não demorou para que sua silhueta se perdesse entre pontes estendidas entre palácios. Arcos impossíveis projetavam sombras dançantes sobre as paredes. Tínhamos chegado à Barcelona encantada, ao labirinto dos espíritos, onde as ruas tinham nomes de lenda e os duendes do tempo caminhavam às nossas costas.

Não sou totalmente a favor de rótulos e padrões mas, se é possível classificar Marina como um romance juvenil, faço questão de expressar aqui um desejo: quem dera todos os títulos juvenis – incluindo aí os YA – tratassem o leitor com a mesma inteligência com que Zafón o faz em Marina.

LEIA PORQUE...
O fator suspense é criativo e não decepciona. A grande vantagem, a meu ver, em relação aos outros tantos títulos de suspense e mistério por aí, deve-se ao texto propriamente dito. Este jamais é esquecido em função de um enredo com pretensões de ser “arrepiante”. O enredo tem o foco merecido, mas a beleza do texto permanece; as palavras estão lá e não exercem função descartável.

DA EXPERIÊNCIA...
Algumas questões fundamentais do livro, como o leitor percebe, podem ser previstas bem antes do desfecho. E isto está longe de ser um problema; pelo contrário, percebemos aí a importância de deslocar o foco exclusivo do fim, para a beleza e genialidade dos meios. Ou seja, o como importa tanto ou mais que o acontecimento sozinho.

FEZ PENSAR EM...
Aquelas lembranças que duram mais que uma vida. E, mais que apenas pensar, deixo a sugestão: se puderem, conheçam Barcelona. É de encantar!

Título: Marina
Título original: Marina
Autor(a): Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Edição: 2011
Ano da obra: 1999
Páginas: 189

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