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‘Raiva’: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Adaptação 6 de março de 2019 Aline T.K.M. Nenhum comentário

Raiva: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Inspirado no livro Seara de Vento, clássico português do século 20 de Manuel da Fonseca, o filme Raiva traz a dura realidade dos camponeses da região portuguesa do Alentejo no início da década de 50.

O longa tem direção de Sérgio Tréfaut, cineasta franco-português nascido no Brasil, cuja carreira é bastante reconhecida por seus documentários, e chega aos cinemas nesta semana.

Os pobres nascem pobres e morrem pobres. Os ricos nascem ricos e morrem ricos. A narração em off dispara verdades afiadas enquanto a imagem acompanha a miséria de uma família do campo no sul de Portugal.

Raiva: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Palma (Hugo Bentes) não consegue trabalho já há algum tempo e perdeu o terreno que dava de comer à família. Entre a apatia da desesperança, a frustração e a raiva acabam por tomar conta da família – assim como de toda a população na mesma situação. Pela própria condição, por aqueles que detêm o poder, pela injustiça social diante da qual todos permanecem atados.

Arquetípicos, os membros dessa família reagem de maneiras diferentes a tudo isso. Em polos opostos, a avó é endurecida, não se deixa derrubar; já a criança, um garoto no fim da infância, parece ser o lado mais vulnerável. O menino é quem chora, berra, e acaba por vomitar a revolta impotente da família, aquilo que ferve dentro de cada um deles.

Raiva: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Se a trama e os personagens angustiam, o visual deleita. Sem dúvida, a fotografia é um aspecto que chama a atenção em Raiva – bela, mas árida e desiludida, como a própria trama. As imagens têm o poder de carregar o espectador e, somada aos silêncios, conseguem tocar fundo sem que se façam necessárias muitas explicações.

Raiva: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Ainda que ficcional, a trama se encontra inserida em um contexto real e vem repleta de verdade, a começar pelo fato de ser protagonizada por um não ator. Para Hugo Bentes, que dá vida a Palma, a história traz um significado importante, já que se relaciona à realidade vivida por sua própria família, como contou o diretor Sérgio Tréfaut em entrevista para o blog.

O diretor contou também que ele mesmo tem uma relação forte com a região, por ser filho de pai alentejano. Durante as filmagens do documentário Alentejo, Alentejo (2014), que aborda os tradicionais cantos polifônicos – o cante alentejano –, Tréfaut já buscava aquele que seria o romance mais emblemático dos conflitos profundos e enraizados do Alentejo. Invariavelmente, todos os caminhos levavam a Seara de Vento, do Manuel da Fonseca, um clássico português bastante comparado ao nosso Vidas Secas.

Raiva: árido e verdadeiro, filme de Sérgio Tréfaut retrata a miséria dos camponeses alentejanos nos anos 1950

Como uma homenagem e por respeito ao autor Manuel da Fonseca, fã de western, Tréfaut optou por uma estrutura típica do gênero para esse longa. Aqui, um acontecimento trágico – os assassinatos – nos é dado no início, para que então a história trate de revelar a sucessão dos fatos que culminaram na tragédia.

A inversão cronológica foi uma escolha feliz também do ponto de vista de quem assiste. Ao iniciar com o crucial e o irreversível, o longa permite ao espectador acompanhar o restante da história com um outro olhar: mais soberano, daquele que sabe o que o futuro reserva a cada uma daquelas pessoas, e também mais melancólico, pela certeza de que nada poderá ser feito para reverter tal destino.


Já adianto que Raiva não é um filme “fácil”. Se o preto e branco é um recurso visualmente lindíssimo, a carência de cores também aparece entranhada na história desses personagens. A trajetória da família, o desenrolar dos acontecimentos que levaram ao desfecho visto nos primeiros minutos, pode se revelar um tanto lenta. Claro, é uma lentidão contemplativa, preenchida de subtexto, mas só será assim para aqueles que estabelecerem uma conexão com o filme desde seus momentos iniciais.

Duro, cruel, verdadeiro. Raiva traz o latente, tudo aquilo que fica cozinhando até chegar ao ponto de explosão. A catarse, contudo, não é explosiva; só que esse transbordar, por mais silencioso, sorrateiro e abafado, tem o poder de deixar marcas profundas na alma.

TRAILER E FICHA TÉCNICA




Raiva – 100 min.
Portugal, Brasil, França | 2017
Direção: Sérgio Tréfaut
Roteiro: Sérgio Tréfaut, baseado na obra de Manuel da Fonseca
Elenco: Isabel Ruth, Leonor Silveira, Hugo Bentes, Rita Cabaço, Kaio César, Diogo Dória, Catarina Wallenstein, Dinis Gomes, Lia Gama, Marília Villaverde Cabral

Estreia: 7 de março

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 9 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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