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Quote da quinzena: Federico em sua sacada

Carlos Fuentes 27 de dezembro de 2015 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS


(Finzinho da última quinzena do ano!)
Tirando um conto de literatura fantástica, Federico em sua sacada foi o primeiro – e único, até o instante – livro que li do mexicano Carlos Fuentes. Tudo começa com o narrador em um hotel, que se depara com Nietzsche na sacada vizinha à sua. O tempo é o atual; a partir da conversa filosófica entre os dois, uma complexa trama começa a surgir, povoada por personagens intrigantes e numerosos e que tem uma revolução como pano de fundo.

Sem dúvida, Federico em sua sacada está entre os livros mais peculiares que já li. Excêntrico, interessantíssimo, mas não tão fácil de ler – confesso. Ainda assim recomendo, mas aviso que requer certa paciência e muita atenção. O resto é reflexão, ideias em ebulição, e nenhum receio de ler uma mesma passagem duas, três vezes.

A partir destes quotes dá para ter uma ideia do livro...

Interpretei suas palavras como um ato de sua própria temporalidade, ainda que perguntar-me por seu tempo – o tempo de Dorian – fosse questionar seu mistério. E um mistério, naturalmente, deixa de sê-lo se se revela. Todos nós, digo, vivemos com alguns mistérios. Próprios: o que jamais revelaríamos de nós mesmos aos demais. E, às vezes, nem sequer ao próprio eu. Em Dorian, em contrapartida, senti nesse dia em que a conheci um mistério idêntico a ela mesma: sua pessoa era um mistério. Sem o mistério, Dorian não existiria. Quem era?

- Sua amiga se chama...?
- Segredo.
- Como quer se chame: acha que três poderiam ser felizes...
- Num arranjo puramente intelectual.
- E dois, um casal não?
- Quanto a isso argumenta. Ela diz que não. Crê que o matrimônio é uma vulgaridade que destrói a inteligência. Que a inteligência pode dar-se entre duas pessoas desde que não se deitem juntas. Mas que o gênio só aparece quando dois homens e uma mulher vivem juntos sem relação sexual. Como pessoas inteligentes e dialogantes, é o que diz.
- Ela dá muitos poderes ao diálogo, sua amiga.

O cristianismo triunfou. Diga-me por quê.
Porque pela primeira vez indicou que a pobreza era o caminho da salvação. Antes, ninguém queria ser pobre. Era como ser escravo. Agora, o pobre podia resignar-se porque seria alguém: o hóspede futuro de um paraíso para você.
Isso não elimina a ambição de sair da pobreza.
Aí está o conflito. Se você permanece na pobreza, o céu será seu. Se não, mais facilmente passará um camelo pelo buraco de uma agulha. Por essa razão, Jesus Cristo, o traído por todos, fica sozinho e morre cada dia...
O que quer dizer-me?
Que uma revolução revela estas contradições.

Cortem as árvores, queimem o pão, matem os animais, a violência é o instrumento da justiça, a violência não admite contradições, a violência se esconde às vezes, reaparece agora, com quem está Aarón? Com eles ou conosco?
[...] Há famílias amontoadas nos porões. Dizem que há violações coletivas, homens violam mulheres e crianças, homens violam homens, que classe de ordem, camarada Azar? Que classe de violência?, mas um homem se apaixona loucamente por uma mulher, senhores, não reconhece nenhum compromisso, nenhum obstáculo, a revolução o libertou! E ela, companheiro, o que diz ela, ela também se apaixonou?, ou ela decidiu dar-se por morta, ver toda a vida como se fosse a eternidade?, é que já não há comida, camarada Azar, o senhor, encerrado em seu palácio, não se inteira? Há crise de meios de subsistência!, o povo abandona as praças, procura comida, só que eles queimaram o pão em público, mataram em público as vacas e os porcos e os cães, tudo para demonstrar que a revolução não é riqueza, que a revolução é despojo, livrar-se de bens, viver de ar!
- Cumpra o seu dever, camarada Azar.
- Ponha fim à violência.

Chegou a hora de admiti-lo, Leo. Se seu irmão, Dante, em vez de ser fuzilado por Aarón, assumisse o poder apesar de Aarón, Dante teria conciliado, admitido a razão de cada parte, [...] Dante teria tornado público o que você e eu, Leo, vamos fazer caladinhos. Seu irmão, puxado de um lado pela assembleia irracional e pelo outro por sua própria razão, se teria comprometido. Governaria pela metade, tentando agradar a todos, e não agradando a ninguém.
Dante, escute-me, era um homem capaz de sacrificar-se voluntariamente em nome de seus ideais. Aarón só era capaz de sacrificar os demais em nome de sua própria ética. É o ruim de uma revolução, Leo. Revela a moral de cada indivíduo e o faz crer que a ética própria é a ética coletiva.
Não é verdade. A única ética política é a que eu lhe disse no início. Fazer o inesperado. Mas dominar sem fazer nada. Engane e contente com atos que surpreendam, mas que sejam intermitentes. O espetacular não o é se for cotidiano. O de todos os dias é o que não se faz notar. Isso é o que lhe dá o poder. O que faz que não se note que você tem o poder.

Trechos retirados do livro Federico em sua sacada, de Carlos Fuentes.

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Oi Aline!
    Não conhecia o livro e me interessei muito. Gosto do gênero, apesar de não ler muitos, e parece ser cheio de reflexões interessantes. Adorei os trechos que você selecionou, fiquei curiosa para conhecer a obra. :)
    beijos ♥
    nuclear--story.blogspot.com

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    Respostas
    1. É um livro cheio de reflexões mesmo, não é assim tão facinho de ler, às vezes ficava meio cansativo, mas vale a pena porque é muito bom. Beijos!

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  2. Sinceramente, livros difíceis de ler me desanimam, porque leio de noite, algumas horas antes de dormir, e aposto que me daria sono. No entanto, gosto de livros para refletir. Ainda não sei se mergulharia nessa leitura.

    xoxo
    www.amigadaleitora.com

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    Respostas
    1. Te entendo! Gosto de livros para refletir, que esfreguem verdades na nossa cara hahaha, sabe. Mas é fato que esse livro eu demorei um tanto a mais que o normal para ler, ele tem muitas histórias, muitos personagens e às vezes a coisa ficava meio complexa. Mas foi uma leitura que me agradou bastante. Beijooo.

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