Persépolis [Marjane Satrapi] | Livro Lab
Últimos vídeos    |  Se inscreva no canal
3 motivos para ver Descendentes 2, o novo filme do Disney Channel  Resenha: Civilizações – A Fonte: dois mundos, uma jornada, de Wallace Horta  Making of O Reino Gelado – Fogo e Gelo: com Larissa Manoela, João Guilherme, João Côrtes e Lipe Volpato
Leituras de abril

Persépolis [Marjane Satrapi]

Companhia das Letras 18 de dezembro de 2013 Aline T.K.M. 17 COMENTÁRIOS

Baseado na história real da própria Marjane Satrapi, Persépolis supera de longe muito romance de formação por aí.

A autobiografia em HQ começa com uma Marjane de dez anos de idade nascida em Teerã e que sonha com tornar-se profeta. A Revolução Islâmica de 1979, com a queda do regime monárquico do xá Reza Pahlevi (que apoiava o Ocidente e reprimia ferozmente os opositores ao regime, além de ser contra alguns princípios tradicionais islâmicos) e o surgimento de uma república islâmica sob o poder do aiatolá Ruhollah Khomeini (que era contra os EUA e Israel), faz com que Marjane se veja obrigada a usar o véu e estudar em uma sala só de garotas.

Universidades são temporariamente fechadas; para continuar a ouvir suas bandas ocidentais preferidas, a garota tem de comprar suas fitas no mercado negro. Ter na parede um poster de uma banda de rock ocidental só foi possível porque seus pais o trouxeram escondido de uma viagem ao exterior – a mãe escondeu o poster costurado dentro do forro do sobretudo de seu pai.

Mais que simples pano de fundo, os eventos históricos determinam os rumos da vida da protagonista, seu crescimento e a formação de sua identidade. Ao abordar a Revolução Islâmica e, mais adiante, a guerra Irã-Israel, o livro revela o drama do período pelos olhos de uma jovem em ebulição, vivendo sua própria revolução pessoal. A ironia e um humor não óbvio – ainda assim evidente – também são ingredientes amplamente utilizados ao longo das mais de trezentas páginas.

Os desenhos de traços simples, sem cores, e o texto perspicaz mostram uma garota que conhece a guerra ainda criança (tendo perdido amigos e familiares), e que por causa dela é mandada por seus pais à Áustria, aos catorze anos, para continuar seus estudos longe do ambiente repressivo de seu país.

De adolescente punk à namorada de um cara que depois se revela homossexual, Marjane passa por diversas transformações, que incluem um surto de crescimento, quadris mais largos e uma pinta no rosto. Foi a “criança nova da classe”, foi simpatizante do anarquismo, foi inquilina de uma mulher chata com cara de cavalo...

Além das descobertas e dificuldades, também marca presença um recorrente sentimento de solidão. O início da adolescência na Áustria, o retorno ao Irã e, posteriormente, a ida à França; a juventude da protagonista é pontuada por certo ”choque” entre as culturas oriental e ocidental. Esse estranhamento experimentado pela garota caminha em paralelo ao estranhamento do próprio leitor ao se deparar com as restrições e a repressão iranianas, numa (inevitável) comparação com o estilo de vida ocidental. O mais interessante é ver Marjane crescer e desenvolver uma visão própria de mundo, que se pode considerar privilegiada graças à educação menos ortodoxa que recebeu de sua família, por sua vez politizada e mais liberal.

Persépolis traz muito de História, tradições e cultura. Com trama e personagens sagazes, apresenta uma narradora-protagonista naturalmente hilária, questionadora e direta. Marjane conversa com o leitor – a personagem desenhada muitas vezes olha nos olhos de quem a lê –, envolvendo-o nos acontecimentos e deixando que faça parte de sua história pessoal.

Se fosse definir Persépolis em uma única frase, seria esta: é uma das coisas mais originais que já li.

LI EM FRANCÊS


Leitura simples, mas recomendaria somente a partir de um nível mais autônomo para não perder a fluidez e o humor das falas.

Edição lida: Persepolis, de Marjane Satrapi, Éditions L’Association, collection Ciboulette, 2007.

LEIA PORQUE...
A resenha é autoexplicativa neste ponto, mas, caso necessário, disponho-me a ser redundante: o livro é muito bom, coisa que não é deste mundo. Só na França, vendeu mais de 400 mil exemplares.

Um pequeno parêntese: A jornada de Marjane, do final da infância à idade adulta, é dividida em quatro volumes que podem ser adquiridos separadamente ou em um único volume completo – o que, em minha opinião, é mais vantajoso. E aproveito para lembrar que tem adaptação para o cinema (assisti na época do lançamento, há uns anos), tão imperdível quanto a HQ.

DA EXPERIÊNCIA...
Conheço pouco e nunca fui muito ligada a quadrinhos; meu contato com o gênero é recente e se resume às opções em francês disponíveis na biblioteca da Aliança Francesa. No entanto, a experiência marcante de ler Persépolis me fez lembrar uma HQ que li, em português, há uns bons anos e que considero uma leitura categoricamente obrigatória: Maus, do Art Spiegelman, que aborda o Holocausto.

FEZ PENSAR EM...
Uma garrafa no mar de Gaza – por também mostrar o choque entre culturas em meio a conflitos no Oriente Médio.

Título: Persépolis (Completo)
Título original: Persepolis
Autor(a): Marjane Satrapi
Tradução: Paulo Werneck
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2007
Ano da obra: 2000-2003 (4 volumes)
Páginas: 352

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

Você também vai  

17 COMENTÁRIOS

  1. Sua resenha despertou minha curiosidade. Embora hq's não sejam um formato que eu tenha muito contato, recentemente resolvi conhecer um pouco mais. Comprei dois livros do Joe Sacco. Dos quais um é Palestina: Na Faixa de Gaza. É o tipo de livro que apresenta um tipo de recorte temático - o oriente médio - bem próximo de Persépolis. Enfim, esse é um tema que muito me interessa, espero poder ler essa Hq. Aliás, a resenha ficou muito boa.

    Abraços
    Juan - sempre-lendo.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olha, Juan, fiquei interessada nesse Na Faixa de Gaza. É um tema do qual não sei muito, mas que me atrai bastante. Abs!

      Excluir
  2. Sem dúvidas Persepolis é a minha HQ preferida. Também não costumo ler muita coisa do gênero, mas como livro em geral, esse também é um dos meus favoritos. História sensacional, muito bem escrita e os desenhos e a forma como foi feito o tornaram ainda melhor, como você disse, é uma obra muito original. <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tenho grande base de comparação; tirando Maus, só comecei a ler HQs esse ano, e só algumas, como expliquei no post. Mas sem dúvida Persépolis é sensacional, em todos os sentidos. =)

      Excluir
  3. Que linda essa HQ!
    Não conhecia =(
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias

    ResponderExcluir
  4. Com certeza entrou para a minha lista! Parabéns pela resenha envolvente e chamativa... Anotei o título para a próxima compra... Amo HQ's!

    Bjs, Isabela.
    www.universodosleitores.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Isabela! Vale a pena pôr na lista e comprar, essa HQ é incrível!

      Excluir
  5. Não sei nem dizer a quanto tempo estou enrolando para comprar esta HQ. Já vi a animação - que é maravilhosa - e estou louca pela HQ, mas é tão cara... =( todos os anos sonho que um de meus irmãos me darão de aniversário ou de natal...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa, também demorei um tantão para ler Persépolis. Vi a animação há uns anos, no cinema ainda, e fiquei só alimentando a curiosidade pelo livro. Um dia ainda comprarei a edição brasileira para guardar e um dia reler (é frustrante se deparar com um livro tão incrível e lembrar que ele é da biblioteca hehe).

      Excluir
  6. Você leu em francês?! Que pessoa rhyca, Brasil!

    Esse foi o melhor quadrinho que li na minha vida! \o/

    Um beijão,
    Pronome Interrogativo.
    www.pronomeinterrogativo.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Viu só?! Pessoa phyníssima!
      É sensacional mesmo, o livro. Ainda quero ter um exemplar só meu.

      Excluir
  7. Nunca li Persepolis, embora já tenha visto alguns comentários. Mas de todas, sua resenha foi a melhor que já li, uau. Ficou tão bem construída, explicativa, que resenha fantástica - ok, sou de ficar boba com resenhas muito muito boas. Faz tempos que não leio uma resenha assim, tão bem escrita. De qualquer forma, o livro/HQ parece ótimo. Tenho certa familiaridade com HQ, mas um fato que colabora para eu querer esta daí. Beijos!

    Chel Lima
    http://corujando.org

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rachel, obrigada pelo elogio! Pode acreditar, Persépolis é daqueles livros que deixam marcas, que a gente não esquece tão facilmente. Recomendo muito!

      Excluir
  8. Esses dias visitei a biblioteca pública da minha cidade e encontrei Persépolis. Me lembrei da quantidade de resenhas positivas que li sobre ele e fiquei com vontade de ler, mas não loquei. De qualquer forma, ainda tenho vontade... Parece mesmo ser muito interessante.
    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Babi, pegue já emprestado da biblioteca!!! Esse livro é fantástico, acredite. Eu peguei da biblioteca do francês e, cara, agora tô morrendo de vontade de comprar um exemplar para mim!

      Excluir
  9. Aline,
    ele é lindo, eu acho tudo lindo nesse livro, é poético e tão particular que chegou um momento pensei "nossa como é bom ler algo assim tão único". Peguei emprestado de uma amiga que veio da frança e super recomendo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, tive esse mesmo pensamento que você! Persépolis consegue ser sério, cômico e poético, tudo ao mesmo tempo. Um livro incrível, com certeza. E vi no seu outro comentário que você também o leu em francês! =)

      Excluir

Siga @aline_tkm lá no Instagram!

Parceiros