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Uma vida [Guy de Maupassant]

À la française 25 de setembro de 2013 Aline T.K.M. 3 COMENTÁRIOS


1819. Jeanne deixa o convento onde passou a adolescência para voltar a viver na companhia dos pais e de Rosalie (sua irmã de leite e dama de companhia de sua mãe), em um castelo na região da Normandia, França. Inocente e cheia de sonhos – fruto de uma educação distante do mundo real –, Jeanne aguarda com fervor o dia em que se casará e idealiza toda uma vida de felicidade naquele castelo. Apaixona-se, casa-se, tem um filho, e se vê presa a um destino banal, medíocre, incrustado numa realidade intimamente crua.

Primeiro romance de Maupassant – ele escrevia basicamente contos até então –, Uma vida é um romance do realismo francês. Tendo sido discípulo de Flaubert, não é de admirar a semelhança entre o romance de Maupassant e o também clássico Madame Bovary, principalmente no que diz respeito à idealização amorosa nutrida por suas protagonistas. (Não li – ainda – Madame Bovary, mas estamos trabalhando o livro na aula de francês, e ainda, na edição que li, há um dossiê sobre o contexto histórico e literário da obra; falarei mais sobre isso adiante.)

Jeanne é tudo aquilo que as mulheres de hoje em dia temem ser e/ou parecer. Alguém que crê no amor perfeito e ideal, no príncipe encantado, e ali deposita toda a motivação de seu ser. Fruto da educação da época: as moças são criadas para se casarem, assim que nada mais natural do que fazer dessa “doce espera” um momento de sonhos, a serem lindamente realizados com a chegada dele.

Como obra observadora da realidade, é certo que Jeanne passa por maus bocados, que encontra desilusão após desilusão. E trata de acreditar que esteve fadada à infelicidade. Sim e não; a posição da mulher na época não teria permitido grandes reviravoltas para Jeanne, mas seus sentimentos – de extrema pureza – e sua visão de mundo contribuíram em seu caminho rumo ao fundo do poço.

Dizer fundo do poço não é exagero de minha parte; as mazelas da protagonista não lhe dão trégua durante a vida. Marido, filho, amigos, todos revelam alguma impureza de caráter e sentimento. Tão irônico como pode parecer, depois da morte dos pais (criaturas bondosas por essência), somente uma presença inesperada é capaz de se colocar ao lado de uma Jeanne já em frangalhos. Além do velho cachorro sempre esquecido por todos.

No entanto, o desfecho revela o vislumbre de algo mais, cabendo ao leitor especular se, afinal, o destino dará a Jeanne momentos de felicidade serena, ou se ocorrerá mais uma repetição de desilusões. Pouco importa; a vida, segundo disseram a Jeanne, nunca é tão boa ou tão ruim quanto imaginamos que ela seja.

LI EM FRANCÊS
Foi uma leitura rápida, mas manter o dicionário fora do campo de visão foi algo extremamente necessário. Procurar o significado de cada palavra desconhecida desanima (e não são poucas; consideremos a época em que o romance foi escrito). Bem melhor é ler de maneira fluida, portanto mais dinâmica, ao aplicar a compreensão aproximada pelo contexto. Dá certo, eu garanto. Algumas palavras pedem, sim, uma olhada no dicionário, algumas. De resto, usem a intuição, um pouquinho de lógica, e se joguem na sofreguidão de Jeanne.

A edição que li traz um dossiê bem completo. São 27 páginas que esclarecem um pouco mais sobre Maupassant, bem como a influência exercida por Flaubert, além de um retrato do contexto histórico da obra, um olhar mais profundo acerca de certos elementos e das características femininas – como Jeanne se insere no realismo, e sua semelhança com personagens de outros clássicos.

Edição lida: Une vie, Pocket (collection Classiques – 6026), 294 páginas, edição 2011.

LEIA PORQUE...
As descrições são um verdadeiro deleite. Maupassant quase nos faz sentir a relva, os ventos gelados, as folhas caídas no campo... Os personagens se fundem com o ambiente ao redor, e também o leitor passa a ter as belas paisagens normandas como seu lar durante a leitura.

DA EXPERIÊNCIA...
Os primeiro capítulos foram arrastados, confesso. Cheguei a achar que seria uma leitura chata e sem sal, e ainda pensei “Pô, ’Maumau’, sacanagem, hein...” Ainda bem que estava enganadíssima. Longe de ser sádica, foi envolvente ver Jeanne sofrer no casamento, vê-la colher os frutos por ter criado um filho cheio de mimos e superproteção. Senti uma pena danada, mas foi envolvente.

FEZ PENSAR EM...
“A humilde verdade”, subtítulo da obra, resume cada linha. No final, essa poderia ter sido a vida de qualquer um, uma vida onde a realidade faz cair por terra os devaneios de juventude.

Título: Uma vida
Título original: Une vie
Autor(a): Guy de Maupassant
Editora: Nova Cultural
Edição: 2003
Ano da obra: 1883
Páginas: 318

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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3 COMENTÁRIOS

  1. Opa, o livro parece ser boom *-*
    Adorei o post!
    Beijos.
    http://www.garotadolivro.com/

    ResponderExcluir
  2. Definitivamente eu tenho muito aprender com você em matéria de leitura porque está aqui mais um livro que eu nunca tinha ouvido falar e que parece sensacional...

    Beijos, Van - Blog do Balaio
    balaiodelivros.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Van, o livro é mesmo muito bom! Eu já conhecia Maupassant pelo nome, assim, de ouvir falar, mas é a primeiríssima vez que leio algo dele. Ótimo para quem curte clássicos. Beijinhos!

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