Balzac e a costureirinha chinesa [Dai Sijie] | Livro Lab
Últimos vídeos    |  Se inscreva no canal
Leituras de outubro: 4 ótimos livros (ou quase!)  Resenha da HQ: A Diferença Invisível, de Julie Dachez e Mademoiselle Caroline  Resenha: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August
Leituras de abril

Balzac e a costureirinha chinesa [Dai Sijie]

À la française 15 de junho de 2013 Aline T.K.M. 11 COMENTÁRIOS

Em 1966, o líder chinês Mao Tsé-tung lança uma campanha que mudaria radicalmente a vida do país: a Revolução Cultural que, entre outras medidas drásticas, expurgou das bibliotecas obras consideradas como símbolo da decadência ocidental. Em meio às transformações político-sociais, o movimento – que só terminaria dali a dez anos – desencadeou mudanças nas concepções e na maneira de pensar do povo. Mas, mesmo sob a opressão da Guarda Vermelha, uma outra revolução explode na vida de três adolescentes chineses quando, ao abrirem uma velha e empoeirada mala, têm as suas vidas invadidas por Balzac, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dickens...

Se me permitem dizer, vocês estão diante do review de um livro pitoresco. E lindo.

Desde as primeiras linhas, o narrador-personagem permite que o leitor mergulhe em seu íntimo e faça parte de sua trajetória em um momento bem peculiar – de sua vida e da própria China. Neste narrador, cujo nome não conhecemos, vê-se o próprio Dai Sijie – o autor esteve durante três anos (entre 1971 e 1974) em um vilarejo nas montanhas da China para o regime de reeducação.

Acompanhamos a cumplicidade, as angústias e toda sorte de sentimentos experimentados pelo protagonista e seu amigo Luo. Longe da família – intelectuais burgueses que, por isso, passaram por punições – os garotos são submetidos a tarefas árduas junto dos camponeses e levam uma vida precária, além da dura perspectiva de permanecerem em reeducação por tempo prolongado.

Tudo seria exponencialmente mais trágico se não contássemos com a destreza mental e a ousadia dos dois amigos, características que lhes proporcionam a regalia de poder assistir a sessões de cinema em outro vilarejo para depois contarem os filmes com detalhes para o restante das pessoas. Essa vivacidade dos personagens confere nuance aventureira à trama – ainda que a narrativa se mostre introspectiva.

Dois acontecimentos marcam a vida dos garotos: o contato com a filha do alfaiate da região – por quem ambos se apaixonam –, e a descoberta de uma mala repleta de obras de Balzac, Flaubert, Rousseau, entre outros...

A descoberta da literatura ocidental – em segredo, pois era proibida durante o regime de Mao – opera grandes transformações nos amigos. As palavras, em especial as de Balzac, têm papel fundamental no processo de amadurecimento e no florescer de Luo e do protagonista. Na fronteira com a idade adulta, eles descobrem o amor, o sexo e a própria vida a partir de obras como O Pai Goriot, Ilusões Perdidas e Úrsula Mirouët. Mais que apenas proporcionar descobertas, a literatura balzaquiana guia os garotos no tortuoso caminho do próprio crescer, ajudando-os a lidar com a ebulição que os acomete por dentro. Ebulição que em grande parte se deve à tal da costureirinha.

A graciosa costureirinha chinesa, aliás, também é seduzida pelas palavras de Balzac, e também nela ocorre uma metamorfose – silenciosa e mais intensa do que se pode imaginar.

Balzac e a costureirinha chinesa é um livro sobre descobertas; sobre tornar-se adulto num contexto severamente limitador. E, especialmente, um livro sobre o poder dos livros e a liberdade que só a literatura é capaz de oferecer.

LI EM FRANCÊS


Ler o livro em francês foi uma experiência enriquecedora, principalmente porque é o idioma em que originalmente foi escrito. O autor é de nacionalidade chinesa, mas mudou-se para a França em 1984, e adotou o francês para escrever seus livros.
A leitura se deu de maneira simples e com fluidez. O dicionário foi bem-vindo para questões de vocabulário e expressões. Sem mais.
(Detalhe: parte deste review será utilizada em um trabalhinho sobre o livro que preciso entregar na aula de francês. ^^ )

LEIA PORQUE...
Ainda que o entorno da trama seja composto por uma realidade dura, a narrativa jamais se afasta da docilidade. O fato de ser em parte autobiográfico faz com que percebamos a leitura de forma ainda mais impactante. Dai Sijie, além de escritor, é também cineasta e foi ele mesmo quem adaptou Balzac e a costureirinha chinesa para o cinema.

DA EXPERIÊNCIA...
História impossível de afastar do pensamento, mesmo quando a leitura já tiver sido há muito concluída. Extremamente inspirador!

FEZ PENSAR EM...
Balzac e todas as obras mencionadas ao longo do livro. Não sei vocês, mas acho especiais livros que sugerem outros livros; é como se a leitura ganhasse continuidade.

Título: Balzac e a costureirinha chinesa
Título original: Balzac et la petite tailleuse chinoise
Autor(a): Dai Sijie
Editora: Alfaguara
Edição: 2007
Ano da obra: 2000
Páginas: 168

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

Você também vai  

11 COMENTÁRIOS

  1. Que legal que você leu o livro em francês! Eu falo bem pouquinho, acho uma lingua tão linda!
    Não conhecia o livro ainda, mas você me conquistou ao usar a palavra "pitoresco" para descrevê-lo. Até hoje nunca me deparei com nada pitoresco que não fosse bom. E pretendo continuar com essa filosofia HAHA
    Beijão!

    http://blogcabelosaovento.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Francês é uma língua linda mesmo, sou apaixonada!
      É verdade sim, achei o livro pitoresco! Muito delicado, bonito e surpreendente. Vale muito a pena lê-lo, recomendo de olhos fechados!

      Excluir
  2. Delícia esse livro né? Acabei lendo as 2 versões, e claro, em francês foi muito mais divertido ;)
    Recomendo o filme tbm, bem fiel ao livro!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Em francês é mais gostoso hahaha. Mas nossa, antes de ler não imaginei que iria gostar tanto assim, mas tanto, desse livro! O filme não deve deixar a desejar, já que foi o próprio homem que o adaptou...

      Excluir
  3. Eu também adoro livros com personagens de passado difíceis, livros doces, sensíveis, únicos. Me despertou a atenção * indo no skoob dando um procurar no livro! * Aline, amei a resenha, não só por falar do livro mas porque você fez uma resenha e tanto, sabe escrever, profissa!

    Beijos - Garota das letras - http://garotadasletras.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ei Geovanna, que fofa, obrigada pelo elogio! Adoro escrever!
      E, sim, esse livro é lindo demais, não tem como ler e não se deixar envolver.
      Bjinhos!

      Excluir
  4. Não conhecia o livro. Bom saber dele, quando eu tiver tempo sobrando procurar pra ler...

    Beijinhos no coração.
    www.intheskyblog.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  5. Também gosto muito de livros que sugerem outras leituras. A gente acaba descobrindo universos além e vamos querendo ler cada vez mais e mais.
    Ainda não conhecia o livro, mas sua resenha me deixou tão instigada que, mesmo não tendo grande interesse pelo livro, fiquei bem curiosa.
    Que bacana você ter lido em francês! Espero, um dia, poder estudar uma língua diferente da nossa e ler livros no idioma em que foi escrito. <3

    Beijinhos! www.primeiro-livro.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Amanda! Sou suspeitíssima para falar, porque adoro aprender idiomas e tenho uma paixão especial pelo francês, mas ler em francês é uma delícia! ^^

      Excluir
  6. Ai meu Deus, você vai me xingar se eu te contar que não conhecia o livro??? E pelo visto é uma bela trama.... Preciso refinar minhas leituras.

    Beijoks, Vanessa - Blog do Balaio
    https://www.facebook.com/DuBalaioStore

    ResponderExcluir
  7. Baixar o Filme - Balzac e a Costureirinha Chinesa - A liberdade de pensamento e a ruptura de um autoritarismo intelectual - http://mcaf.ee/cneox

    ResponderExcluir

Siga @aline_tkm lá no Instagram!

Parceiros