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Submissão [Michel Houellebecq] #resenha

À la française 7 de março de 2016 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Vendido como “o livro mais polêmico do ano” em 2015, Submissão não só causou burburinho pelo tema e pelas declarações polêmicas que o autor vez ou outra faz, mas também por ter chegado às livrarias francesas no dia do atentado à sede do jornal Charlie Hebdo, massacre que resultou em doze mortes em janeiro do ano passado.

Mas não parou por aí. Entre os leitores, o burburinho também teve a ver com aquela velha questão de expectativa vs. realidade. A (nem tão feliz) comparação com distopias como 1984, de George Orwell, faz a gente esperar uma crítica implacável ao Islã, algo como o retrato de uma espécie de ditadura imposta ao Ocidente que castiga duramente os que se rebelam contra ela. Só que Submissão não segue esse caminho. A pegada é outra, não menos genial e conduzida com inteligência.

O ano é 2022. Mohammed Ben Abbes, líder da Fraternidade Muçulmana, é eleito presidente da França. Moderado e carismático, o político não lança mão de violência nem de atitudes de general, mas apenas de grande astúcia. Notadamente estrategista, a presidência islâmica não demora a se movimentar para a anexação de países árabes à Europa – um caminho rumo à construção de uma espécie de “Império Romano”, pensando em dominação, mas desprovido de massacres.

Enquanto os franceses testemunham as mudanças trazidas pela nova presidência, François – o protagonista dessa história – enxerga tudo a partir de um olhar cético, desconfiado e tomado por incertezas e medo. Professor universitário, ele leva uma vida entediante e pontuada por amores efêmeros e fracassados; tem no clássico escritor Joris-Karl Huysmans seu objeto de estudo – vários de seus passos encontram um paralelo na história do escritor, como a tentativa de buscar a fé após uma vida pautada pelo prazer carnal.

Com a Fraternidade Muçulmana à frente do país, as mudanças são inevitáveis: as universidades são privatizadas, as escolas convertem-se à educação islâmica, as mulheres são desencorajadas a estudar e devem vestir-se de maneira velada, o foco sai da educação para mirar na família e no crescimento demográfico, e por aí vai.

Os professores que optam pela não conversão ao islamismo são convidados à aposentadoria precoce com um gordo salário, que fica mais robusto caso a pessoa opte por se converter e continuar lecionando. Há também outros “benefícios” na conversão, como a poligamia, que acaba brilhando aos olhos de muitos. O mais curioso é perceber como a maioria da população acaba não se incomodando – e até mostrando satisfação – diante desse cenário; nem sequer se sabe de grandes movimentos contra o novo governo.

Contudo, é importante saber que o foco da trama não reside no islamismo. É certo que todo esse movimento das eleições é um baita pano de fundo, mas o que aparece em primeiro plano, na realidade, são duas coisas: a decadência da sociedade ocidental e o anti-herói niilista e misógino – que pode ser um tanto intragável para muitos leitores. Além disso, é mais interessante ver as consequências desse background a nível individual.

A controvérsia tampouco se encontra exatamente na figura do presidente muçulmano. Mas na ideia de um país ou, para ser mais abrangente, um continente que se vê prestes a ser aniquilado. Uma Europa que já não será mais a mesma, tanto em termos políticos como culturais, e em tudo o que toca sua população – por exemplo, as imigrações, o crescimento da xenofobia, o antissemitismo. Dado o fracasso do Cristianismo perante a degradação da sociedade moderna, o Islã é colocado como um movimento natural, o próximo passo a partir de hoje, devendo dominar o Ocidente e – por que não? – o mundo.

Provocadora também é a ideia de que, para consertar a degradada sociedade ocidental, mostra-se necessário o regresso à fé e à religião – no caso, à religião muçulmana. E, em algum lugar desse pensamento encontra-se a questão mais inquietante do livro: estaria a realização do ser humano na total submissão?

Assolador e delicioso, Submissão satiriza uma sociedade deteriorada e que parece já não ter cura, tudo isso por meio de um protagonista que é, de certa maneira, o retrato dessa deterioração. As referências a Nietzsche e às obras de Huysmans reforçam as oportunidades para pirar nas reflexões – e olha que não são poucas: impossível não concluir a leitura com a mente a todo vapor.

Se Submissão foi o livro mais polêmico do ano passado, isso eu não sei dizer com precisão. Mesmo assim é especulador, suficientemente ousado e cutuca o leitor de inúmeras formas. As cabecinhas mais inquietas certamente não conseguirão passar longe!

LEIA PORQUE...
É polêmico, o tema é muito atual – vide, por exemplo, as recentes manifestações organizadas pelo movimento islamofóbico Pegida na Alemanha – e a narrativa traz um tom filosófico interessante. Além disso, é de leitura acessível. Houellebecq provoca; apesar de reacionário, islamofóbico e misógino, o autor manda bem nos escritos, não se pode negar.

DA EXPERIÊNCIA...
Tinha apenas uma vaga ideia do que encontrar em Submissão e expectativas homéricas devido ao barulho em torno do livro. Expectativas superadas; gostei da abordagem do tema através da visão e do impacto na vida de um único indivíduo. Mesmo que não concorde nem de longe com as opiniões e o posicionamento do autor, sem dúvidas pretendo ler mais livros dele.

FEZ PENSAR EM...
Por abordar questões da vida na sociedade, mexer com medos e especulações, e também pelo lado político da coisa, a leitura me lembrou alguns livros do José Saramago, como Ensaio sobre a Lucidez e As Intermitências da Morte.

QUANTO VALE?

Título: Submissão
Título original: Soumission
Autor(a): Michel Houellebecq
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar
Editora: Alfaguara
Edição: 2015
Ano da obra: 2015
Páginas: 256
Onde comprar: Fnac | Saraiva

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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