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Une parfaite journée parfaite [Martin Page] #resenha

À la française 3 de novembro de 2015 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Ele, o mais anônimo dos anônimos, sobrevive à rotina entediante do escritório, cultiva um jardim no interior do apartamento, é sozinho e contrata atores para representar mulher e filho nas festas da empresa, além de passar as férias dentro de um elevador. Sua principal ocupação? Passa os dias a tramar tentativas de suicídio. Seja com um revólver guardado na cabeceira da cama, com uma corda para enforcar-se, com a lâmina do barbeador, com sua dose diária de ansiolíticos e barbitúricos, com um verdadeiro campo minado escondido sob o piso do apartamento, ou mesmo eletrocutado.

Aos vinte e tantos anos, ele seria mais ou menos um homem como qualquer outro, não fosse o fato de ter sido diagnosticado portador de um tubarão que nada dentro de seu corpo. Fonte de mal-estar, ele pode sentir o imenso corpo e as barbatanas que o arranham por dentro. Sorte que frequentemente ele se depara com um quarteto de músicos mexicanos que interpretam, a sua maneira, sucessos do pop-rock de todos os tempos.

Esta introdução já é suficiente para convencer os leitores de que Une parfaite journée parfaite é um daqueles pequenos tesouros literários que merecem ser lidos o quanto antes. Estou errada? Dizer que o livro é de autoria do Martin Page, bem, aí já vira covardia. Sou suspeitíssima para falar – o francês é um dos meus autores preferidos – mas o cara sempre presenteia o leitor com tramas peculiares e personagens deliciosamente excêntricos.

Irônica e espirituosa, a prosa mergulha em metáforas e pincela a trama com elementos fantasiosos e surreais, isso tudo sem deixar de ser poética. O leitor é provocado ao penetrar na história de um homem comum que nunca consegue colocar um ponto final em sua vida. Tão racional quanto delirante, o livro embala em humor negro a rotina de um personagem para quem adequar-se à vida em sociedade é um esforço e um sofrimento inigualáveis.

Por mais improvável que de início possa parecer, o autor nos faz adorar esse seu protagonista outsider que lembra o Antoine de Como me tornei estúpido. Inserido numa sociedade de aparências e dominada pelo estresse cotidiano, e não conseguindo levar a cabo o suicídio, nosso carinha busca refúgio não apenas na excentricidade, mas também num humor irônico e na música – aliás, referências musicais é o que não falta no livro!

E se lá no começo da resenha vocês já acharam o protagonista um tanto esquisitinho, saibam que não para por aí! Do banheiro de seu apartamento, o cara escuta ninguém menos que Bill Clinton, que prepara seus discursos em seu rico toalete na Casa Branca. Assim, através de uma espécie de ligação entre os encanamentos dos dois banheiros, nosso protagonista foi o primeiro a ouvir as declarações sobre Monica Lewinski, e os discursos sobre Kosovo e Israel.

Apesar de certa dose de desespero, Une parfaite journée parfaite não é nem de longe deprimente, mas um romance vivaz, repleto de reflexões e humor negro. Dono de um lado obscuro – como todo e qualquer ser humano – e também absurdo, o livro promete deliciar o leitor com uma história genial sobre alguém que tenta viver num mundo de parasitas (um deles, imenso, mora dentro de si próprio) e que enfrenta diariamente os perigos da vida em sociedade.

LI EM FRANCÊS
Por ser fã incondicional e confessa do autor Martin Page, trouxe este e outros livros dele (e de outros autores também) na minha mala de retorno ao Brasil, depois de quase um ano morando na França – mais precisamente, na cidade de Clermont-Ferrand. Só não recheei ainda mais minha mala com compras literárias por falta de espaço mesmo, e isso porque ainda levei uma outra malinha também lotada e muitas coisas tive de enviar pelo correio.

Sobre a leitura em francês, foi supertranquila, então quem tem certo domínio da língua pode se jogar sem medo. Dicionário é sempre bom, sempre útil – afinal ninguém tem um dicionário ambulante no cérebro. No celular, gosto de usar um app chamado Dictionnaires Français, que reúne num só lugar vários dicionários franceses (sempre francês-francês); ao pesquisar uma palavra, sempre vem significados de várias fontes, até mesmo de imagens do Google.

LEIA PORQUE...
Dando à realidade alguns toques de absurdo, o livro tem a mesma pegada de Como me tornei estúpido, com protagonista outsider que não consegue (e não quer) se adequar à – cruel – sociedade contemporânea. Ah, e ele ainda tem tendências suicidas!

Aliás, Une parfaite journée parfaite foi escrito logo antes de Como me tornei estúpido, mas foi publicado depois, tornando-se “o segundo” romance do autor. Infelizmente não há edição brasileira do livro – editora Rocco, leia isso e faça alguma coisa rsrsrs!!! – e não encontrei informação sobre uma possível edição em inglês, nem em espanhol. A leitura fica então restrita à edição francesa – recomendo tanto esse livro que, mesmo se você está só começando a ler em francês, diria para dar uma chance, ter paciência e se jogar.

Agora, se você não lê em francês, recomendo Como me tornei estúpido mesmo, porque a atmosfera da trama é superparecida.

DA EXPERIÊNCIA...
Não tenho nem o que falar; pegar um livro do Martin Page é sempre a delícia das delícias. Simples assim.

FEZ PENSAR EM...
Como me tornei estúpido, Mariachis, California Dreamin’ e The Cure. Tudo junto e misturado. A presença do absurdo, do surreal, me lembrou um pouco A Espuma dos Dias, livro lindo e mais que especial do Boris Vian.

E também me lembrei das ilustrações do Vincent Bergier inspiradas neste livro (é dele essa ilustração no início do post). Descobri há um tempinho e amei.

QUANTO VALE?

Título original: Une parfaite journée parfaite
Autor(a): Martin Page
Editora: Points
Edição: 2010
Ano da obra: 2002 (escrito em 2000)
Páginas: 115
Onde comprar (em francês): Livraria Cultura | Amazon (livro físico) | Livraria Francesa

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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