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O Rinoceronte [Eugène Ionesco]

À la française 4 de março de 2015 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS


Num vilarejo francês, um rinoceronte é visto à solta pelas ruas. A reação dos locais se divide entre o estranhamento e a exasperação – afinal, o gato de estimação de uma dona de casa foi esmagado pelo animal. No entanto, quando a população se dá conta de que são as pessoas que estão se metamorfoseando em rinocerontes, numa verdadeira epidemia, a situação se complica. O pânico divide lugar com a negação, e ninguém parece capaz de explicar o que de fato está ocorrendo.

Em três atos, a peça de Ionesco – parte do movimento “teatro do absurdo”* – possibilita múltiplos olhares e interpretações, característica que faz dela fonte inesgotável de interesse e curiosidade até os dias atuais.

*O teatro do absurdo é um estilo de teatro que surgiu no século 20 pós-Segunda Guerra, e se caracteriza pela total ruptura com os gêneros mais clássicos, como o drama ou a comédia. É um gênero que traz uma visão insólita do homem e da realidade; apresenta a existência como sendo desprovida de significado, colocando em cena um mundo sem propósito e carente de soluções. O movimento buscou inspiração nos surrealistas e dadaístas, e opõe-se radicalmente ao realismo. Eugène Ionesco, Samuel Becket, Jean Genet, Harold Pinter e Arthur Adamov são alguns dos principais autores do teatro do absurdo.

A partir de diálogos desconexos e discussões aparentemente sem sentido – quantos cornos tinha o rinoceronte que passou há pouco? –, além da presença do insólito, o texto seria uma metáfora da ascensão dos governos totalitários. Ao criticar os totalitarismos (relacionando-se, mais especificamente, à Segunda Guerra e ao nazismo), a peça satiriza o comportamento humano e mostra quão influenciável e vulnerável é o homem perante uma ideologia qualquer em evolução.

O cômico e o surreal estão presentes em cada momento, especialmente no que se refere à resposta da população frente à epidemia de rinocerontes. O conformismo e a passividade, e também a resistência aparecem de forma clara, muito embora toda a parte crítica e metafórica da peça seja bastante implícita e exija a reflexão do leitor. Diria mais: é preciso começar a leitura sabendo um pouco do que irá encontrar; uma vez que se topa comprar a (bastante ilógica) ideia proposta, aí o leitor mergulha realmente no texto, e as reflexões, críticas e associações vão surgindo uma após a outra num verdadeiro bombardeio mental.

Se o primeiro ato é de leitura um tanto arrastada, no segundo as coisas começam de fato a acontecer; aí, tudo parece engrenar e nos vemos já bastante absorvidos pela história. Ao final do terceiro ato, é inevitável o sentimento de que algo se modificou no interior de quem lê. É o tipo de texto que requer certo tempo para envolver plenamente o leitor; mas, uma vez envolvido, esse leitor leva ainda mais tempo para despedir-se completamente dele. Trata-se de um texto que faz pensar, que deixa aquela pulga atrás da orelha e nos faz colocar reticências mentais ao terminar a última frase.

Incredulidade. Este é o sentimento dos habitantes do vilarejo enquanto a epidemia ainda não se alastrou: os seres humanos, afinal de contas, ainda são maioria. Interessante é perceber o que ocorre quando os perissodáctilos se convertem na maioria da população. Com rinocerontes por toda parte, a minoria humana passa então a questionar sua própria natureza, a colocar em dúvida ideias há muito enraizadas em si. Os seres humanos são mesmo superiores? Mais belos? Ser homem é mesmo “normal”? Ou o “normal” é ser rinoceronte?

Afinal, é difícil resistir quando se é minoria. Ainda mais quando a epidêmica transformação em rinoceronte é tratada por alguns como parte da evolução, ou quando o poder e a força bestial dos rinocerontes, cada vez mais numerosos, seduzem e influenciam tudo e todos. Assim, os rinocerontes (as grandes massas) aparentam beleza, enquanto que a (cada vez mais escassa) humanidade torna-se feia e digna de desprezo.

Em O Rinoceronte, tudo é muito tragicômico. A solidão e o vazio estão presentes, mas é a comicidade que dá o tom nos diálogos. Repleta de frases entrecortadas, incoerências, repetições e desordem, a comunicação entre os personagens ultrapassa o limite do ridículo e carece propositalmente de sua função essencial: comunicar. Um pouco – muito – como tem sido a vida e os seres humanos há tempos.

Quanto aos personagens, estes se dividem em tipos óbvios. Jean se mostra mais inflexível e arrogante, além de racionalizar tudo. O Lógico é outro personagem que também representa o lado racional, usando da lógica para explicar a vida – comicamente, seu raciocínio parece andar em círculos, e suas conclusões terminam tão ou mais confusas que as questões que as precederam. Outros personagens oscilam entre a descrença, total passividade e racionalização. Mas é Bérenger, um indivíduo passivo, sem muita cultura e que tende ao alcoolismo, que persiste em sua resistência à epidemia: é um dos únicos que ainda têm um verdadeiro senso de humanidade dentro de si.

O que despertaria a transformação de um ser humano em rinoceronte, e então, uma epidemia de transformações? A passividade, o egoísmo? Lá no início, nas conversas na praça do vilarejo, já se notavam divagações sem um porquê, discussão por preocupações pequenas e generalizações apoiadas na ignorância; indício de que os homens já há tempos se encontravam a meio caminho de se tornar bestas. Os chifres, a rugosa pele cinza-esverdeada e os barridos roucos e violentos eram apenas o detalhe faltante para que a metamorfose se desse por completa.

LEIA PORQUE...
A loucura e irracionalidade presentes no texto fazem viajar, e a crítica e reflexão imbutidas ainda são muito relevantes. De fato, a peça pode ter um significado bastante amplo, por isso continua a caber perfeitamente nos dias atuais.

DA EXPERIÊNCIA...
A leitura foi vagarosa no início, mas quando peguei o ritmo... Nada me segurou até terminar de ler. É sempre interessante levar em conta as características próprias do gênero (muitas repetições, nonsense) para então se entregar ao texto. Toda a ideia da trama me conquistou desde o começo, fazendo com que me envolvesse cada vez mais e me deixando curiosa e interessada por outras peças do teatro do absurdo.

FEZ PENSAR EM...
Rhinocéros Cosmique, do Salvador Dalí. Aliás, falando do artista, quem se lembra da obsessão de Dalí por rinocerontes em Meia-Noite em Paris?! Não pude deixar de evocar essa cena durante toda a leitura!

Também pensei em Ele Está de Volta, de Timur Vermes. Neste romance, Hitler de repente acorda em Berlim, no ano de 2011. Com humor e genialidade, a trama mostra como a figura do Hitler acaba se aproximando da população nos dias atuais, influenciando-a e conquistando sua simpatia – se não isso, pelo menos uma popularidade massiva.
QUANTO VALE?

Título: O Rinoceronte
Título original: Rhinocéros
Autor(a): Eugène Ionesco
Tradução: Luís de Lima
Prefácio: Zora Seljan
Editora: Saraiva (Coleção Saraiva de Bolso)
Edição: 2012
Ano da obra: 1959
Páginas: 320
Onde comprar: Saraiva

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. o Teatro do Absurdo não foi um "movimento", ler Martin Esslin...

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    1. Sim, eu não afirmei que este teatro foi um movimento, por isso botei entre aspas. A ideia é que havia todo um movimento que utilizava o teatro do absurdo como forma de expressão. ;-)

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  2. Aline, amei seu comentário e seu ponto de vista a respeito do livro. Infelizmente existem pessoas (que se acham seres superiores), que ao invés de reter o que é bom e válido tem o prazer de se colocar em desacordo e expor sua opinião apenas para criticar e tentar se mostrar mais elevado intelectualmente, porém você, minha querida, fez a sua parte e se me permite dizer, a fez muito bem. Parabéns, seu texto irá me ajudar bastante num exame amanhã. :-)

    Je suis tellement heureuse pour votre aide.
    Merci beaucoup ma chere!

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    Respostas
    1. Oie! Merci pour ton message! Ça me fait plaisir de savoir que mon texte t'a aidé! Fiquei feliz, de verdade, em saber que o texto te ajudou. =) Olha, antes eu me incomodava um pouco com comentários meio maldosos, querendo alfinetar, mas hoje eu não ligo mais. Beijão!

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