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A Insustentável Leveza do Ser [Milan Kundera]

Clássicos 5 de fevereiro de 2015 Aline T.K.M. 8 COMENTÁRIOS


Sabe aquele sentimento único que se experimenta ao deparar-se com o – ou um dos – livro da sua vida? Pois foi este o carimbo que A Insustentável Leveza do Ser, clássico contemporâneo do tcheco Milan Kundera, deixou em mim.

Praga, fim da década de 60; a Primavera, ocupação soviética, regime comunista, opressão. Os holofotes se revezam entre quatro protagonistas: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. O libertino Tomas e a doce Tereza dividem o teto e a vida, e se apoiam em seu amor. Sabina, amiga e amante de Tomas, é dona de si, fugaz e muito sexual. Já Franz é idealista e sonhador. Através das décadas, acompanhamos os relacionamentos, as frustrações e o destino dessas quatro pessoas, em um retrato emoldurado pelo caráter passageiro da vida.

Durante as pouco mais de trezentas páginas do livro, Milan Kundera nos leva numa jornada filosófica pela natureza do ser humano, dos relacionamentos, da vida. Análise com muito de psicológica, que tem como apoio a teoria do eterno retorno de Nietzsche e as ideias de Parmênides quanto à oposição entre o pesado e o leve.

Se por um lado o peso comprime, ele também torna tudo mais real, mais vivo e intenso, dá sentido e vínculos ao ser humano. Já a sua ausência, a leveza – ou a falta de um fardo –, faz voar e distancia do real, conferindo liberdade e despreocupação, mas trazendo também a ausência de laços e compromisso, a insignificância. Se considerarmos então o eterno retorno, retiramos a fugacidade das coisas; a vida passa a ser uma série de repetições, rotinas, o que torna tudo carregado de responsabilidade, de um peso impossível de ser ignorado ou levianamente perdoado. A questão que o autor nos traz é justamente se o peso seria verdadeiramente cruel e a leveza, bela e sempre desejável.

Ao dissecar os personagens, Milan Kundera descortina o ser humano em sua essência, seus desejos e motivações. Com metáforas e uma narrativa suficientemente densa, o autor nos carrega para as profundezas do amor, da sociedade e mesmo do mundo; fala de carências e solidão, das diferentes motivações da pessoa adúltera e do tipo de olhar que cada ser humano busca e necessita. Fala de candura e da entrega incondicional, livre de qualquer peso, personificadas na pele da cachorrinha Karenin.

Não era obcecado pelas mulheres, era obcecado pelo que em cada uma delas há de inimaginável, em outras palavras, era obcecado por esse milionésimo de dessemelhança que distingue uma mulher das outras.

E, ainda, fala da dualidade existente no âmago de cada um de nós. Exemplo disso é a relação de Tomas e Tereza. Ele não consegue se privar de seus desejos, tampouco pode viver sem Tereza (ainda que por vezes a considere um peso em sua vida, além de expressar pena da moça). Ela – traumatizada pela mãe e que tem uma relação peculiar com o próprio corpo e os espelhos – é ciente das traições do companheiro, mas segue obstinada ao seu lado em um sofrimento mudo, cujo único meio de escoamento se dá através de pesadelos constantes. A fortaleza de um não vive sem a fragilidade do outro, e vice-versa.

De que arma poderia dispor? De nenhuma, a não ser de sua fidelidade. A fidelidade que ela lhe ofertou desde o início, desde o primeiro dia, como se tivesse percebido imediatamente que não tinha outra coisa para lhe dar. O amor deles é uma arquitetura estranhamente assimétrica: repousa na certeza absoluta da fidelidade de Tereza como um palácio gigantesco sobre uma única coluna.

Eleger um dos protagonistas como o mais significativo é tarefa impossível, mas não posso esconder que tive, sim, um preferido. A pintora Sabina tem na traição um modo de vida, algo que lhe atrai e dá prazer e, sobretudo, do qual sua essência não lhe deixa escapar. Não se trata somente da traição carnal: ela trai o puritanismo do pai, o comunismo na Escola de Belas-Artes (Sabina admirava Picasso), e, de certa maneira, a identidade do próprio país.

A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo do que partir para o desconhecido.

Mas tão essencial quanto as histórias entre os protagonistas, é toda a faceta política, histórica e social que permeia a trama. Diante da invasão russa na Tchecoslováquia, todos os quatro se verão por vezes de mãos atadas, oprimidos em uma pátria que inevitavelmente deixa neles sua marca indelével – por mais distantes que estejam dela fisicamente.

Existencialista, A Insustentável Leveza do Ser desconcerta. É aquele livro que nos faz querer saborear intensamente cada parágrafo, para então digeri-lo; que nos faz encarar os vazios dos personagens só para nos darmos conta de que não diferem muito do vazio que reside em nosso próprio ser. É o título que, ao lado de Cem Anos de Solidão, conquistou o posto de livro essencial da minha vida.

Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós a conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina.

LEIA PORQUE...
É uma leitura encorpada, complexa – no melhor sentido da palavra – e que exige certa entrega da parte do leitor. Esteja preparado: provavelmente se tornará um dos livros mais inesquecíveis que você já leu.

DA EXPERIÊNCIA...
É difícil resumir em uma resenha tudo o que esse livro traz. Além da narrativa que toca fundo, digo que encontrei nele praticamente tudo de que mais gosto em uma leitura: conteúdo bastante psicológico, análise profunda dos personagens, divagações sobre as coisas da vida, contexto sociopolítico relevante para a trama, entre outros.

FEZ PENSAR EM...
O sentido de um fim, de Julian Barnes. Também reflexivo, o livro fala sobre “a pequenez da vida”, o tempo, a memória. Vale a leitura.

QUANTO VALE?

Título: A Insustentável Leveza do Ser
Título original: Nesnesitelná Lehkost Bytí
Autor(a): Milan Kundera
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
Editora: Companhia de Bolso (Companhia das Letras)
Edição: 2008 (11ª reimpressão)
Ano da obra: 1984
Páginas: 310
Onde comprar: Americanas.com | Submarino | Cia. dos Livros

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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8 COMENTÁRIOS

  1. Excelente resenha do começo ao fim!
    De um clássico que já te contei que talvez seja o meu livro favorito de todos os tempos; aquele que fez eu pegar ainda mais gosto pela leitura, pois ao estar lendo-o eu pensava: "que livro perfeito!". E então acabei tendo que me tornar fã do Kundera e sair comprando vários livros dele quando apareciam em promoção.
    Voltando a sua resenha: fiquei com vontade de reler o livro, mas incrivelmente não o tenho e estou com uma lista imensa de livros para ler, então nada de relê-lo tão cedo, (infelizmente).

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    1. Esse livro realmente ganhou um lugar especial na minha vida. <3 Pela narrativa do autor e pelos temas que ele aborda, já tô vendo que vou virar fã de verdade. Tenho me esperando na estante A Identidade e A Festa da Insignificância. Ansiosa para ler!!
      Eu totalmente acho que A insustentável leveza do ser é aquele livro que deve ser relido um dia, mas com um intervalo de tempo realmente grande. É o tipo de livro que cada vez que a gente lê deve absorver algo diferente dele, a cada fase da vida ele deve tocar de forma diferente. É o que eu imagino, pelo menos. Beijão.

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  2. Eu já queria ler esse livro mas com a sua resenha eu quero mais. Só preciso estar em um momento muito bom porque esse livro pareceu ser emocional e psicologicamente pesado.

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    1. Oi Bruna, é um livro muito bom, especial. Não é que ele seja pesado, mas a trama é densa, ele é bem profundo, traz várias reflexões (e talvez não muito otimistas, digamos assim). Para mim, é o tipo de livro que funciona muito bem nas minhas fases mais introspectivas. =)

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  3. Excelente dica,..Vou anotar na minha extensa lista de leitura!
    Abs.

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    1. Fabio, anota sim e vai atrás, porque o livro é realmente sensacional. =) Bjão!

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  4. Não conhecia esse livro, tenho que ler mais livros desse estilo, porque eles parecem ser muito interessantes. Adorei os quotes que você escolheu, especialmente o da traição, porque me deu uma outra ideia do que isso pode significar, pelo menos da perspectiva da personagem (que pelo jeito deve ser mesmo uma que se destaca). E o bom é que não tem problema do autor não desenvolver com profundidade os personagens, o que eu acho sempre excelente.
    Beijos!
    Isa.
    Portal dos Livros

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    1. Nem consigo dizer o quanto esse livro me marcou! Se você curte tramas e personagens mais profundos, vai fundo, leia sim! Sem falar que a narrativa é muito gostosa de ler, e as reflexões que o autor traz são impossíveis de passar despercebidas. Muito bom! Beijo!

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