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O Abajur Lilás [Plínio Marcos]

Global 5 de janeiro de 2015 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS


Difícil encontrar quem, ao se aventurar pelo gênero teatral brasileiro, não tenha trombado com O Abajur Lilás, de Plínio Marcos. Escrita em 1969, em plena ditadura militar, a peça só foi liberada pela Censura onze anos depois, em 1980. Tendo a montagem sido interrompida e retomada um par de vezes até sua liberação, O Abajur Lilás mobilizou toda a classe teatral, tornando-se símbolo de persistência.

A ação tem lugar no prostíbulo de Giro, um homossexual desapiedado que conta com Osvaldo, um segurança violento, para fazer valer sua autoridade ali. Em estado de extrema degradação humana, três prostitutas tentam sobreviver. Dilma se apega aos valores e ao filho que precisa criar; a rebelde e inconsequente Célia só deseja tomar o prostíbulo e o poder para si; Leninha é novata no lugar, individualista e parece não se abalar com os conflitos alheios. Tudo se complica quando um abajur aparece quebrado no dormitório e nenhuma das três assume a culpa.

Sem disfarces nem qualquer piedade, Plínio Marcos retrata as camadas mais marginalizadas da sociedade, seres sem perspectiva outra que sobreviver um dia após o outro de uma vida ingrata. As três prostitutas, o cafetão e o segurança fazem o que podem para defender o que é seu em um entorno marcado pelas relações de poder, onde a justiça parece não existir e os interesses individuais ditam as leis.

capa O Abajur Lilás
Apesar de dividirem o quarto e a triste realidade, Dilma, Célia e Leninha nada têm em comum. A esperança sincera; a rebeldia e a luta; ou então a completa indiferença e alienação; a maneira como elas lidam com a dominação imposta por Giro vai de um extremo a outro. Donas de voz única – e linguagem muito livre –, cada uma delas provoca no leitor impressões e sentimentos dos mais ambíguos, o que acaba sendo bastante interessante no decorrer da leitura e à medida que nos envolvemos com a obra.

Abarcando apenas um pedaço – embora uma amostra muito exata – da vida das três prostitutas, o texto visceral confronta o leitor com a banalidade da existência, com a vida reduzida a nada, com a realidade opressiva e decidida através da lei da caça e do caçador. Três seres em busca da salvação, do resgate, e apenas isso.

Mestre em revelar a podridão humana, Plínio Marcos não oferece clemência em bandeja de prata. E com O Abajur Lilás não podia ser diferente: é preciso boa dose de frieza e estômago para encarar uma história que transcende as páginas e o palco.

LEIA PORQUE...
Miséria, injustiça, desigualdade social, violência, submissão, autoritarismo. Tudo aqui é escancarado, para quem quiser ver – ou melhor, para quem não teme ver.

DA EXPERIÊNCIA...
Foi a segunda vez que li a peça e digo que o tempo fez toda a diferença. Minha resposta e reflexão perante a frieza do texto, hoje, foram bem diferentes de 8 anos atrás.

FEZ PENSAR EM...
A ideia do ser humano capturado na armadilha da vida. Dica: para quem quiser ir além, vale a pena pesquisar O Abajur Lilás como metáfora à Ditadura Militar no Brasil.

QUANTO VALE?

Título: O Abajur Lilás
Autor(a): Plínio Marcos
Editora: Global
Edição: 1975
Ano da obra: 1969
Páginas: 61
Onde comprar: Submarino | Saraiva | Estante Virtual

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Oi, Aline, tudo bem?
    Caramba, seria uma vergonha dizer que NUNCA ouvi falar de "O Abajur Lilás"? Quando o assunto é gênero teatral o que logo vem a minha mente é "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. Mas nunca é tarde para conhecer coisas "novas" - mesmo que esse novo seja só pra mim rs - não é?!
    Fiquei extremamente interessada no texto ainda mais por tratar da degradação humana. Gosto de textos que trabalham com a podridão humana.
    A resenha ficou incrível. Parabéns mesmo!

    Beijos,
    Nina & Suas Letras

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    Respostas
    1. Imagina, apesar de o texto ser bem conhecido, muitas vezes a gente não tem muito contato com o gênero teatral. Eu só o havia lido anos atrás por causa da faculdade, e agora que estou cursando Teatro, estou descobrindo e me interessando por mais peças dele e de outros autores.
      O Auto da Compadecida também era o primeiro que me vinha à mente, acho que porque gostei bastante (e nem tinha tantas expectativas assim), e gosto do filme também.
      Mas, bom, se você tiver interesse, recomendo bastante O Abajur Lilás, ele pega bem pesado mesmo nessa parte da degradação. Beijos!

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  2. Nossa preciso revelar que nunca li nada desse gênero literário e sou um pouco distante da literatura nacional (eu sei, estou perdendo milhões de livros e histórias maravilhosas, quem sabe um dia). Gostei bastante da resenha, me deixou bem curiosa sobre o livro e esse gênero.

    Beijinhos,
    http://www.girlbeinggeek.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olha, falo por mim, nunca é tarde para descobrir gêneros e autores. Eu nunca fui fã de ler teatro, apesar de sempre amar fazer teatro (quando criança e agora que estou cursando o técnico). Estou começando a me familiarizar mais com o gênero e estou gostando, sabe. O que acho legal nos textos nacionais é a realidade que eles retratam, a maior parte das vezes uma realidade triste e pesada. Beijo!

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