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Resenha: Em tom de conversa, de Julian Barnes

Julian Barnes 30 de outubro de 2014 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS

Resenha: Em tom de conversa, de Julian Barnes

[...] se você continua vivendo com alguém, lentamente vai perdendo a capacidade de fazer essa pessoa feliz, embora sua capacidade de magoar permaneça intocada. E vice-versa, é claro.


Um triângulo amoroso no melhor humor irônico de Julian Barnes, Em tom de conversa não é uma história de amor, mas antes, uma história sobre o amor. Também sobre infidelidade. E faz compreender que não existem regras imutáveis no casamento.

Stuart e Oliver são amigos de infância. Stuart faz o tipo mais metódico, trabalha em um banco e é introvertido. Também não costuma ser bom com piadas. Já Oliver é carismático, sexy e gosta do que é sofisticado. No entanto, é um professor de inglês fracassado. E Gillian, esposa de Stuart, tem origem francesa e trabalha como restauradora de quadros. Em dado momento – mais especificamente no dia do casamento de Stuart e Gillian –, Oliver se apaixona pela mulher do amigo...

Os três protagonistas se revezam na narração dos fatos; os monólogos – com humor bastante apurado, sarcasmo e tom confessional – falam diretamente ao leitor, que é contemplado com três pontos de vista distintos dos fatos. Aliás, Barnes é um verdadeiro mestre ao conferir voz e personalidade únicas e bem delineadas a cada um dos personagens. A sensação que se tem é a de ouvir pessoas diferentes, tão humanas que vão além das páginas do romance.

Ao longo da narrativa somos surpreendidos com referências a Jules et Jim. Uma das delícias do livro, afinal, não há como testemunhar um triângulo amoroso entre amigos sem que os pensamentos pousem no clássico triângulo de Truffaut. Deliciosa também é a passagem que marca o momento em que Oliver se apaixona por Gill; ao percorrer cada pedacinho do rosto dela com o olhar, Oliver deixa transparecer uma delicadeza que até então se pensava impossível para o esnobe e egocêntrico personagem.

Além dos protagonistas que compõem o triângulo, outros personagens aparecem para dar sua visão das situações, e um deles é Mme. Wyatt, a mãe francesa de Gill. Sábia essa mulher que, tendo sido abandonada por seu marido quando a filha era criança, tem ideias bastante sensatas a respeito do amor e do casamento. Inclusive, vem dela a ideia que mencionei lá no início, a de que não há regras imutáveis no matrimônio. Bem, na verdade, Mme. Wyatt consegue pensar em apenas uma: “o homem nunca deixa sua mulher por uma mulher mais velha. A não ser isto, tudo o que for possível será normal”. Sua sabedoria nos assuntos do amor eu só a compararia à do ilustre professor Schianberg em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – guardadas as devidas proporções.

Paralelos e metáforas permeiam a narrativa, sempre mantendo o amor em primeiro plano. Talvez ninguém imaginaria comparar o sentimento com o mercado financeiro, ou então enxergar a vida a partir da incerteza – inimaginável – do trabalho de restaurar uma pintura de séculos passados.

Em tom de conversa não vem para desconstruir o amor – como pode parecer em alguns momentos –, mas para promover um sincero debate acerca do tema. Não há certo ou errado, culpado ou vítima; tudo depende do momento específico e do ponto de vista – o que, felizmente, não falta aqui. Tudo é muito relativo e algumas coisas podem “simplesmente acontecer”. Com qualquer um. Até com os personagens de Julian Barnes.

LEIA PORQUE

É Julian Barnes e só isso já basta. Duvida? Relembre aqui 5 motivos para ler o autor.

Não, mas sério, o livro traz doses de humor e reflexão, e apresenta uma situação complicada – o triângulo amoroso – de uma forma simples e até mesmo inevitável.

DA EXPERIÊNCIA

Amei tanto que mal posso esperar para ler Amor, etc, romance que traz o mesmo trio de personagens: Oliver, Stuart e Gillian.

FEZ PENSAR EM

Talvez uma história de amor (Martin Page) e Em caso de felicidade (David Foenkinos). Ambos abordam o amor, o relacionamento e as crises; leituras imperdíveis.



Onde comprar: Saraiva | Livraria da Folha

Título: Em tom de conversa
Título original: Talking it over
Autor(a): Julian Barnes
Tradução: Roberto Grey
Editora: Rocco
Edição: 1994
Ano da obra: 1991
Páginas: 240

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Aline, vc sempre me faz querer livros que (quase) não ouço falar e gosto disso, de explorar o que não tá (tão) óbvio. Vc me pegou nesse trecho "Não há certo ou errado, culpado ou vítima; tudo depende do momento específico e do ponto de vista – o que, felizmente, não falta aqui. Tudo é muito relativo e algumas coisas podem 'simplesmente acontecer'." e algo nessa capa me chama a atenção, como o pq de serem dois garfos e não uma faca, um garfo e uma colher (arrisco dizer que faz parte daquela velha teoria de que "três é demais" e Oliver não seria uma colher pra complementar). Dei uma olhada no skoob e a capa de 1998 acaba com toda minha teoria rs Espero que relancem com a capa anterior.

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    1. Oie! Gostei muito do seu comentário. Sabe que essa capa com os talheres até me atrai mais que a outra, mas não chega a me encantar, não. Agora, o livro... É uma leitura e tanto, vale muito a pena. Aliás, se você tiver chance de ler qualquer livro do Julian Barnes, leia, porque o cara é muito bom. Por aqui o mais conhecido dele é "O sentido de um fim", que o fez ganhar o Man Booker Prize, e é muito bom também. Beijos.

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  2. Gostei muito da sua resenha, eu não conhecia o livro, logo que vi a capa pensei não deve ser um história legal, mais lendo a sua resenha, vejo o erro que estava cometendo, parabéns em apresentar livros que muitos não conhecem mais que são verdadeiras raridades. Já estou te seguindo.
    Me visite ----------------> http://sonhoseaventurasdeamor.blogspot.com.br/

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    1. É verdade que a capa não chama muito a atenção, mas o livro é realmente bom. Tanto a trama (é um triângulo amoroso, mas apresentado de um jeito muito original, na minha opinião) quanto a própria narrativa; é aquele livro prazeroso de ler, sabe. Beijão.

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