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Leituras de abril

Águas-fortes cariocas [Roberto Arlt]

Literatura latino-americana 12 de março de 2014 Aline T.K.M. 5 COMENTÁRIOS

Ônibus “jacaré” na Av. Atlântica, em Copacabana, nos anos 30. A imagem é daqui.

No início de 1930, o escritor Roberto Arlt, que publicava uma coluna diária de crônicas no jornal argentino El Mundo desde 1928, teve a oportunidade de viajar pela América do Sul escrevendo notas de viagem. Na coluna, mais conhecida por Aguafuertes porteñas – referência à água-forte, gravura feita através da corrosão provocada por ácido sobre uma placa de metal –, Arlt comentava o cotidiano com absoluta franqueza, utilizando gírias e expressões das classes mais baixas.

Publicadas entre 2 de abril e 29 de maio de 1930, as crônicas que compõem Águas-fortes cariocas foram produzidas por Arlt durante o período em que passou no Rio de Janeiro.

Em primeira pessoa, o autor fala sem comedimento nem receio de condenar; apenas descreve a realidade tal como a vê, fazendo das crônicas do livro um retrato interessante do Rio de Janeiro do início do século XX. O olhar portenho acaba sendo um diferencial, ganha em apuração e consegue ser menos “viciado” – e provavelmente mais imparcial – justamente por não ser nativo.

Organizadas de forma cronológica, as crônicas fazem notar a evolução, a maturação do ponto de vista de Arlt em solo carioca. Se nos primeiros textos encontramos um deslumbramento inicial em relação à cidade, às belezas naturais e até à extrema educação de seus habitantes, nos textos seguintes, o tédio e a saudade da própria pátria parecem atingir o narrador em cheio (homesick?!). Não demora muito e notamos quase que uma redescoberta de Buenos Aires por parte de Arlt e seu enaltecimento a partir de comparações com a cidade brasileira. Tudo isso acontece enquanto o escritor se dá conta, progressivamente, dos problemas sociais de que padece o Rio de Janeiro de então.

Do encantamento do início, o autor passa à constatação da realidade e às duras críticas envolvendo a população carioca, em especial no que se refere ao aspecto cultural, à falta de instrução e de uma consciência coletiva. Das classes mais altas – cujas mulheres exibem uma imitação bastante duvidosa das francesas – aos operários – acomodados na ignorância, ninguém passa incólume pelo olhar e pela língua de Arlt.

Mais curiosa ainda é a estupefação do autor ao dar-se conta, assim, de repente, de que a escravidão fora abolida havia apenas 42 anos. A tomada de consciência repentina e a postura que Arlt assume imediatamente após opõem-se à maneira como ele se refere aos negros durante toda a narrativa, geralmente num tom diferenciador e depreciativo.

Aliás, o teor sexista e bastante preconceituoso do narrador é, de certa maneira, um espelho da época e não deve por isso apresentar incômodo para o leitor. Em contrapartida, é impossível evitar o deleite perante a escrita fluida do autor, tão oposta à língua dos eruditos em sua forma, bem como ao politicamente correto em suas ideias.

Alguns “extras” ao final do livro aproximam ainda mais o leitor do escritor, dando-nos a certeza de estarmos frente a frente com uma obra digna de atenção. Isso além, claro, das próprias crônicas, as grandes responsáveis por fazer deste um livro difícil de largar até que seja inteiramente devorado. Essencial e obrigatório, sem mais.


Águas-fortes cariocas faz parte da coleção OTRA LÍNGUA, lançada em 2013 pela Editora Rocco, e que traz autores que têm em comum o espanhol latino-americano como idioma.

LEIA PORQUE...
O Rio de Janeiro do início de 1930 pelos olhos de um argentino é motivo mais que suficiente para se jogar na leitura das crônicas.

Ah, Buenos Aires! Lá a gente se aporrinha, é verdade, mas se aporrinha acordado até as três da manhã. Mas aqui? Meu Deus! Aonde você vai às três da manhã? Que incrível! Disse às três da manhã? Aonde você vai, aqui no Rio, às 11 da noite? Aonde? Me explique, por favor.

DA EXPERIÊNCIA...
Leitura deliciosa que, de quebra, ainda traz um pouco de história. Até agora, o que mais gostei da coleção Otra Língua.

FEZ PENSAR EM...
Como sabemos tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco acerca do nosso próprio país.

Título: Águas-fortes cariocas
Título original: Aguafuertes cariocas
Autor(a): Roberto Arlt
Tradução, organização e prefácio: Gustavo Pacheco
Editora: Rocco (coleção Otra Língua)
Edição: 2013
Ano da obra: 2013 (organização); crônicas escritas entre 1928 e 1930
Páginas: 256
Onde comprar: Saraiva | Submarino | Livraria Cultura | Livraria Cultura (e-book)

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Olá Aline! Sou sua xará, tenho 30 anos, moro em São Caetano do Sul e também sou apaixonada por livros e filmes! Descobri seu blog por acaso, e estou viciada! rs..vários dos livros recomendados por você estão na minha wishlist e estou adorando conhecer novos títulos e autores! Parabéns! Beijinhos

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    Respostas
    1. Oi, Aline!! =) Obrigadaaa, fico bem feliz que esteja curtindo o blog. Depois passa aqui para compartilhar o que você anda lendo, se leu algum dos livros mencionados aqui no blog e se curtiu, etc! Beijooo.

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  2. Muito legal o projeto!
    Realmente conheço pouca dessa literatura, mas fiquei curiosa!
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias

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  3. Sabe o que imaginei Aline?
    Ele escrevendo essas memórias nos dias de hoje e comparando o Brasil com Argentina. A coisa ia ficar feio para nós.. Bem já está.

    Beijos.
    In The Sky. Blog

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    Respostas
    1. Hahaha acho que num tem jeito, apesar das coisas boas, a situação é BEM complicada para gente, viu?!?! Comparando com a Argentina ou não.
      Beijo!!

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