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Talvez uma história de amor [Martin Page]

À la française 19 de fevereiro de 2013 Aline T.K.M. 6 COMENTÁRIOS


Misantropo, desprovido de autoconfiança, publicitário e que vive num prédio de putas. Esta é a definição de Virgile a partir dos quatro motivos que fazem com que as mulheres se afastem dele, segundo uma de suas amigas. Um anti-herói que, certo dia, encontra na secretária eletrônica uma mensagem de Clara, anunciando-lhe o fim do relacionamento entre eles. Seria normal, não fosse o fato de ele não ter qualquer lembrança de nenhuma Clara que tenha sido sua namorada. Recorrendo até a sua psicanalista, na busca por uma explicação satisfatória, acabará por tomar uma decisão inaudita: reconquistar aquela mulher que ele não conhece ou da qual ao menos não se recorda.

Segundo Virgile [...], sua hipocondria era mais um hobby do que uma neurose: quando se é solteiro, no tempo livre que se desperdiça não fazendo amor, não passeando no bosque de mãos dadas, não indo ao cinema para ver um filme romântico, não existe atividade mais estimulante do que fazer radiografias ou eletrocardiogramas e ser apalpado clinicamente de diferentes modos.

É sabido que existem diversas categorias de solidão. Virgile é solidão ambulante, sustentada por bases nada sólidas e movida pela crença de ser consequência trágica de caráter imutável. Ao longo da narrativa, dissecamos um protagonista que se refugia no estar só. Fato decorrente de uma infância nômade com pais artistas de circo. Ver o pai vendado atirar facas que se detinham a menos de um centímetro da silhueta da mãe lhe ensinou, logo cedo, as incertezas das relações.

Martin Page nos brinda, mais uma vez, com um protagonista deliciosamente esquisito. Supomos que Virgile, medroso e com mania de morte, seja um tipo entediante e sem ideias. Só que o cara é publicitário e se destaca na área. Na agência, Virgile “brincava com as palavras e as ideias para produzir slogans; contava histórias cujos personagens eram desodorantes e carros”. Ele, que tem fixação por estabilidade, se dá bem numa carreira conhecida pela alta rotatividade. Eu já disse que o autor caminha por vias previsíveis? Não, e creio que nunca vou dizer.

Virgile tem amizades tão peculiares quanto ele próprio. Armelle, amiga de todas as horas, “decidira acreditar na influência dos corpos celestes sobre os seres humanos e se tornar vidente”. É de praxe que toda mulher encalhada tenha um grande amigo gay. Virgile é a versão masculina dessa quase tradição, ao ter em Armelle sua grande amiga lésbica.

Não escapara da morte, mas sim, por algum tempo, da ideia da morte, e a ideia da morte é mais grave do que a própria morte, pois nos persegue a vida inteira.

Ser deixado por alguém com quem ele sequer se lembra de ter se relacionado é um episódio tragicômico que sacode a vida – e a certeza quanto à própria saúde – de Virgile. O término de uma história sem realmente começá-la representa uma forma de escudo contra o sofrimento. Sem o inconveniente do sofrimento que, numa situação normal, acompanharia o pacote, aproveitar os benefícios desse término parece ser o mais sábio a se fazer.

O ser humano obedece para não morrer. É o teorema da criança bem comportada: se você se comportar bem, terá boas notas, uma profissão, uma casa, uma mulher, e nem você nem nenhuma das pessoas que você ama morrerão. Acabamos descobrindo, no fim, que se trata de uma bobagem, mas isso funciona por muito tempo.

Impulsionado a agir pela primeira vez na vida, Virgile começa a tomar decisões de verdade – ir atrás da misteriosa ex e encontrar uma explicação para o acontecido –, colocando mais sentido à própria existência. O saldo, portanto, só pode ser positivo, e inclui a obtenção de um atestado afirmando que ele próprio está vivo (para voltar a ter eletricidade em casa) e a resolução de se desfazer do seu Pensamentos, do imperador Marco Aurélio, que sempre tivera como bíblia pessoal. Coisas bem positivas, cada qual à sua maneira, na vida de Virgile – e na mente indecifrável de Martin Page.

LEIA PORQUE...
O livro é repleto de sacadas geniais. Trechos que a gente lê e relê logo em seguida só para melhor saboreá-los, não por serem necessariamente poéticos, mas pela excentricidade disfarçada de sabedoria – justamente o que os torna geniais.

Ele havia escrito um pequeno texto que ficaria bem, aos seus olhos, nos cartazes do metrô ou, melhor ainda, na voz de um ator sorridente num anúncio de televisão: “O iogurte simboliza a irrisória existência humana: é branco, insípido e cheio de bactérias, mas é uma das raras coisas que desejamos e que, enfim, podemos possuir.”

DA EXPERIÊNCIA...
Igual a todas as obras do Page que li, foi inevitável terminar a história com um sorriso nos lábios e um aperto no peito por ter de me separar tão logo dos personagens.

FEZ PENSAR EM...
Paris, o grande amor do protagonista. Cidade que, malgrado os incômodos típicos das metrópoles, “continuava a ser a cidade com a maior quantidade de salas de cinema e de farmácias do mundo”.

Durante muito tempo, Virgile considerara que homens e mulheres se defrontavam com três mal-entendidos: o encontro, o relacionamento e a separação. As pessoas se conhecem, se amam e se separam por motivos que desconhecem. Nenhum casal está livre dessa declinação de mal-entendidos.

Título: Talvez uma história de amor
Título original: Peut-être une histoire d’amour
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2009
Ano da obra: 2008
Páginas: 160

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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6 COMENTÁRIOS

  1. Esse é um dos meus livros desejados do skoob, acho a sinopse muito curiosa e engraçada. Um cara correndo atras da ex de outro porque ela ligou por engano pra ele e terminou tudo. #viagemdemais kkkkkkkk

    Bjs, @dnisin
    www.seja-cult.com

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    Respostas
    1. Hahaha na verdade a gente meio que especula todo tipo de coisa a partir da sinopse e durante o desenrolar da história. O livro é muito bom e é mais centrado no próprio protagonista do que na tal história em si.

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  2. Oi, Aline!
    Estava curiosa sobre esse livro qdo foi lançado, mas alguns resenhas negativas me desanimaram. Mas a sua resenha - muito boa por sinal - me aguçou novamente a curiosidade. Vou adiciona-lo novamente a lista de leitura. ;)

    Bjo.
    Daniela Tiemi
    www.livrosfilmesemusicas.com.br

    P.S.: Obrigada pelas visitas e comentários no blog.

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    1. Pois é, Dani, no Skoob tem uma porção de resenha negativa desse livro. Penso que as pessoas acabam buscando o livro na expectativa de encontrar outro tipo de enredo, talvez por causa da capa e do título. Na realidade, o livro vai mais para o lado do sarcasmo (próprio do autor), do pessimismo até. Bjinho!

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  3. Não conhecia o autor, muito menos esse livro. Mas confesso que se visse em uma livraria esse título, ele não me atrairia. Gostei da premissa do livro e fiquei bem curiosa.

    Beijosss
    Blog Literário Reading Books and More...

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    1. Jéssica, recomendo fortemente o autor, eu adorei todos os livros que li dele. É para quem gosta de um humorzinho ácido, sarcástico. É justamente esse o ponto, a capa e o título, principalmente, flertam com o chick-lit, que é exatamente o que o livro não é. Bjão!

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