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Quote da quinzena: Nu, de botas, de Antonio Prata

Antonio Prata 19 de abril de 2016 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Adoro montar os “Quote da quinzena” – é muito gostoso revisitar leituras de faz tempo, reler todos os trechos que eu havia marcado na época, lembrar a história e os personagens.

Com Nu, de botas isso tudo foi especialmente bom, pois as crônicas que compõem o livro de Antonio Prata já convidam a essa coisa da lembrança, convidam à nostalgia. Não falo do sentimento triste e vazio, mas da nostalgia boa, que aquece o coração e faz a gente se lembrar com carinho da própria infância.

Os textos, no melhor da autoficção, evocam episódios da infância do narrador – o próprio Antonio Prata –, em especial aqueles mais engraçados. A época, fim dos anos 70 e início dos 80, é bem marcada por elementos os mais diversos e aparições ilustres – há uma crônica em que as crianças tentam ligar para o programa do Bozo pedindo uma bicicleta.

É por essas e outras que eu simplesmente ADORO esse livro e recomendo a quem quer que seja! Nos quotes abaixo já dá para ter uma ideia do que vocês vão encontrar no livro, mas depois também podem dar um pulinho lá na resenha, vale a pena!

Nada me causou mais estranhamento, na infância ou depois, do que visitar as casas dos meus vizinhos – primeiro e definitivo contato com a alteridade. As plantas dos sobrados eram idênticas, mas a ocupação variava: na casa do Henrique, por exemplo, a televisão estava onde deveria ficar a mesa de jantar, a mesa de jantar onde deveria estar o sofá, o quarto dele era onde, lá em casa, ficava o quarto dos meus pais e vice-versa. Sem falar na casa do Rodrigo, onde os pratos eram azuis. Como poderiam não saber que pratos são brancos?
Tinha pena dos outros, hereges, vivendo errado.

Nada me deixava mais tranquilo, contudo, do que os sons da máquina de escrever vindos do quarto ao lado. Era meu pai, escritor, que trabalhava depois que todos haviam ido dormir. (...) O ritmo caótico, mas contínuo – como chuva no telhado –, era ainda melhor do que a música de ninar, cadenciada, pois sugeria que mesmo em meio à confusão poderia haver harmonia. Sob esse cafuné auditivo o mundo desaparecia, sem violência, depois voltava a existir, quando eu menos esperasse, iluminado: plim!

(...) cada coisa neste mundo tinha uma explicação e eles não sabiam me dar a da cueca. Na volta ao vão da escada, passei pela cozinha, peguei uma tesoura e, encolhido em meu rincão, cortei rente à costura a fonte da minha angústia. Agora a etiqueta não me causaria incômodo algum. Algo mais sutil, porém, passaria a me pinicar, daquela noite em diante: se eles não sabiam nem a função da cueca, como confiar no resto?

Pra começo de conversa, você nem tem certeza de que todos fazem cocô ou se aquele é só um defeito seu e de mais meia dúzia de infelizes, (...) Minhas irmãs eu sabia que faziam cocô. Meu pai, também. Mas o que dizer sobre minha mãe? Minha professora? O Super-Homem? O Bozo? Eles faziam cocô?

Hoje acho que entendo o porquê do nosso interesse por Romeu e Julieta. Filhos de pais recém-separados, não nos eram nada distantes, perdidas no século XVI, situações como “amor impossível”, “relações inconciliáveis”, “a casa dos Montéquio” e “a casa dos Capuleto”. Por mais civilizados que tivessem sido os divórcios do meu pai e da minha mãe, do meu padrasto e de sua ex-mulher, em algum lugar devíamos nos solidarizar com dois jovens cujas vidas eram afetadas pelas rixas de seus antecessores. Ou, talvez, nem precisássemos ir tão longe. Afinal: o que é a infância senão uma sequência de desejos cerceados pelos adultos?

Trechos retirados do livro Nu, de botas, de Antonio Prata.

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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