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Quote da quinzena: Como me tornei freira, de César Aira

César Aira 5 de abril de 2016 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Sou uma grande admiradora e curiosa com relação à literatura latino-americana. E não só com a literatura, aliás, pois o cinema e os artistas latinos exercem em mim igual fascínio – Frida Kahlo, oi? – e me fazem querer cada vez mais conhecer tudo quanto puder desses gênios vindos de tão pertinho da gente.

Acho que já deu para entender a satisfação que me leva a dedicar os quotes desta quinzena ao argentino César Aira e à obra Como me tornei freira, composta por duas novelas enigmáticas e marcadas por um quê surrealista.

“Como me tornei freira” é a primeira delas e traz uma criança – César Aira como o narrador-personagem – traumatizada por um episódio envolvendo seu primeiro sorvete de morango. Após o trauma, a vida lhe foi algo dura, pontuada pela ausência do pai e as consequências que ela traz consigo.

Em seguida, temos “A costureira e o vento”, uma novela bastante surreal que trata de uma costureira em busca do filho desaparecido. Sua busca acaba levando-a à Patagônia, e esse trajeto é repleto de personagens improváveis, incluindo o vento – chamado Ventarrón – que se apaixona pela costureira. Tudo isso, na realidade, surge das ideias de um escritor que, em um café em Paris, tenta escrever uma história da qual apenas lhe veio à mente o título.

Como eu mesma disse na resenha, este é “um daqueles livros que te faz ignorar que existe vida além das páginas”. Lá se vai mais de ano, mas, querem saber?, ainda me lembro da experiência que foi ler César Aira e concordo – deliciosamente – com esses meus dizeres.

Espero que curtam os quotes!

Bastou que as primeiras partículas se dissolvessem na minha língua para eu passar mal de tanto nojo. Nunca havia provado nada tão repugnante. Eu era bastante difícil com comida, e a comédia do nojo não tinha segredos para mim quando eu não queria comer; mas isto superava tudo o que já havia experimentado; meus piores exageros, incluindo os que nunca havia me permitido, estavam amplamente justificados.
(Novela “Como me tornei freira”)

Pois bem: minha memória se confunde com o rádio. Ou melhor: eu sou o rádio. Graças à perfeição sem falhas da minha memória, sou o rádio daquele inverno. Não o aparelho, o mecanismo, mas o que saiu dele, a emissão, o contínuo, o que se transmitia sempre, inclusive quando o desligávamos ou quando eu dormia ou estava na escola. Minha memória contém tudo, mas o rádio é uma memória que contém a si mesma, e eu sou o rádio.
(Novela “Como me tornei freira”)

Talvez cantasse bem, e tivesse ficado nervosa. Isto é menos provável: era ruim demais. Nem de propósito poderia ter sido pior. Desafinava a cada nota, não só nas difíceis. Era quase atonal... É inexplicável. O inexplicável. O que é verdadeiramente inexplicável não tem outro santuário que os meios de comunicação de massa.
(Novela “Como me tornei freira”)

Na minha vida houve pouca aventura. De fato, nenhuma. Não me lembro de nenhuma. E não acho que seja casualidade, como quando você começa a pensar e percebe, surpreso, que no decorrer do ano ainda não viu nenhum anão.
(Novela “A costureira e o vento”)

Não acho que valha a pena viajar se você não leva sua vida junto. É uma coisa que estou confirmando à minha própria custa nestes dias melancólicos em Paris. É paradoxal, mas uma viagem só é suportável se for insignificante, se não contar, se não deixar marcas. Uma pessoa viaja, vai até o outro lado do mundo, mas deixa sua vida guardada em casa, pronta para ser recuperada na volta. Porém, quando está longe, essa pessoa se pergunta se por acaso não terá trazido sua vida junto, sem querer, e em casa não resta nada. A dúvida basta para criar um medo atroz, insuportável, sobretudo porque é um medo do nada, uma melancolia.
(Novela “A costureira e o vento”)

Nunca se desfruta a experiência imediatamente anterior à morte. Mas enfim, como a morte é o inesperado por excelência, nenhuma experiência pode ser chamada de última. Sempre existe a possibilidade de que seja a penúltima.
(Novela “A costureira e o vento”)

A recordação é uma miniatura lumínica, como o holograma da princesa naquele filme, que transportava em seus circuitos o robô fiel de galáxia em galáxia. A tristeza inerente à recordação provém de que seu objeto é o esquecimento. Todo o movimento, a grande linha, a viagem, é um arroubo do esquecimento, que se curva na bolha da recordação. A recordação é sempre portátil, está sempre nas mãos de um autômato vagabundo.
(Novela “A costureira e o vento”)

O mundo, a vida, o amor, o trabalho: ventos. Grandes trens cristalinos que passam apitando pelo céu. O mundo está envolto em ventos que vão e vêm... Mas não é tão simples, tão simétrico. Os ventos de verdade, as massas de ar que se deslocam entre diferenças de pressão, acabam virando sempre para o mesmo lado e se reúnem nos céus argentinos: ventos grandes e pequenos, os ventos cosmopolitas e oceânicos tanto quanto os diminutos sopros de jardim: um funil das estrelas reúne todos, adornados com suas velocidades e direções como fitas nos penteados, e vão parar nessa região privilegiada da atmosfera que é a Patagônia.
(Novela “A costureira e o vento”)

Tinha diante dela a maravilhosa Patagônia noturna, inteira e ilimitada. Era uma meseta branca como a lua, e um céu negro cheio de estrelas. Grande demais, lindo demais, para ser abarcado num só olhar, e apesar disso deveria fazê-lo, porque ninguém tem dois olhares.
(Novela “A costureira e o vento”)

O que em mim é incidente minúsculo, em você se faz destino, aventura... E não é uma analogia, mas uma nova disposição do mesmo. Não importa o volume da voz, mas o lugar da história em que se fala; a história tem cantos e dobras, cercanias e distâncias... Uma palavra a tempo pode tudo... E sobretudo (mas é o mesmo) importa o que se diz, o sentido; na disposição da história há uma ponte de prata, um contínuo, da voz ao sentido, do corpo à alma, e por esse contínuo avança a história, por essa ponte...
(Novela “A costureira e o vento”)

Algo parecido acontecia com a maledicência das vizinhas, esse passatempo apaixonado de que Delia era uma especialista. Se eu entrasse na consciência de Delia, como um narrador onisciente poderia fazer, descobriria com surpresa e talvez certo desencanto que a maledicência não existe no foro íntimo. Mas era ela mesma quem se surpreendia! E descobria sua surpresa quando era sua própria narradora onisciente...
(Novela “A costureira e o vento”)

Trechos retirados do livro Como me tornei freira, de César Aira.

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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