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Sete Anos Bons [Etgar Keret] #resenha

Autobiografia 4 de janeiro de 2016 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Esqueçam tudo o que vocês acham que encontrariam ao ler um autor israelense. Primeiro porque, aqui, não se trata de um autor qualquer, mas um dos mais populares escritores israelenses dos dias de hoje. Etgar Keret já foi publicado em mais de 30 idiomas e, além de escritor, é também roteirista e diretor de cinema.

Feita a introdução que considerei obrigatória, me sinto mais apta a adentrar a obra. Sete Anos Bons é o primeiro livro de não ficção do aclamado autor; dividido em sete capítulos ou anos, compreende o período entre o nascimento de seu filho, Lev, e a morte do pai, Efraim, vítima de câncer. As 36 crônicas que compõem o livro são resultado de um mix perfeito: o cotidiano do autor mescla-se às guerras e conflitos políticos, com pedaços de sensibilidade e absurdo, muita delicadeza e sarcasmo, e punhados lotados de humor. Isso, tudo junto e misturado, dá ao leitor um retrato singular da vida na Israel dos dias atuais. E ainda, por mais curioso que isso possa parecer, o livro não foi publicado em terras israelenses por escolha do próprio autor.

Keret tem uma ligação muito forte com sua Tel Aviv natal e, em seus textos, narra a vida na cidade. Uma vida feliz, cujo cotidiano muitas vezes não difere muito do meu e do seu, mas que é fortemente influenciado pelos conflitos na região, por bombardeios, pela destruição iminente. Mesmo assim a vida segue, as pessoas vivem, os dias passam, o mundo não para.

As questões familiares e viagens a trabalho se intercalam com assuntos mais densos, como religião, política e antissemitismo; no entanto, a narrativa fluida e a aparente leveza com que o autor trata esses assuntos tornam a leitura descontraída. Os tantos empecilhos são tratados de maneira cômica e lançando mão do humor negro – sabe aquele negócio de rir da própria desgraça? Mas não se enganem: ainda que a vestimenta seja leve, o conteúdo toca fundo e faz a cabeça da gente ir a milhão, tamanha a potência do que é dito.

Tomo a liberdade de abrir um parêntese para mencionar uma das muitas passagens marcantes do livro, mais especificamente aquela em que o autor traça um breve paralelo entre o jogo Angry Birds e o terrorismo. Claro, recheado de humor sarcástico, nem preciso dizer...

Angry Birds é tão popular em nossa casa e em outros lares porque nós verdadeiramente adoramos matar e quebrar coisas. Assim, é verdade que os porcos roubaram nossos ovos na curta abertura do jogo, mas, cá entre nós, isso é só uma desculpa para canalizar a boa e velha fúria na direção deles. Quanto mais tempo penso nesse jogo, mais claramente compreendo uma coisa: por baixo da linda superfície de animais divertidos e suas vozes doces, Angry Birds na realidade é um jogo coerente com o espírito de terroristas fundamentalistas religiosos.

Sei que Steve Jobs e seu sucessor não gostariam dessa última frase e sei também que não é politicamente correta. Mas de que outra maneira explicar um jogo em que você é preparado para sacrificar a vida só para destruir as casas de inimigos desarmados com suas mulheres e filhos lá dentro e provocar a morte de todos? E isso para não entrar na questão dos porcos: um animal sujo que, na retórica muçulmana fanática, costuma ser usado para simbolizar raças hereges cujo destino é a morte. Afinal, vacas e ovelhas poderiam tranquilamente também roubar nossos ovos, mas os criadores do jogo ainda escolheram deliberadamente os porcos capitalistas gordos da cor do dólar.

De 2005 a 2012, ano após ano, Keret participa do crescimento do filho e se vê em situações em que precisa explicar ao garoto a situação delicada do país em que vivem. Neste período o autor também viaja a diferentes países, conhece a Polônia e se aproxima de suas raízes (seus pais são judeus poloneses que sobreviveram ao Holocausto), manifesta a adoração que sempre teve pelo irmão mais velho e a desaprovação – mas respeito – pelo fato de sua irmã ter se tornado ortodoxa. Também aparecem nas crônicas o dilema quanto ao futuro de Lev – o garoto entrará ou não para o serviço militar quando crescer? –, o aborto sofrido pela esposa, e a descoberta do câncer que levou seu pai embora.

Se “sete anos bons” é uma expressão intrínseca à cultura judaica, sinônimo de fartura mas também de precaução, no livro – e na vida do autor – os sete anos bons foram o período em que Keret teve o privilégio de ser, ao mesmo tempo, filho e pai. Sete anos vividos entre o nascimento, a doçura, as descobertas e o amor; mas também entre o medo e a dor da perda. Sete anos que resultaram em um dos livros mais bonitos e originais que tive a oportunidade de ler nesse ano que passou.

LEIA PORQUE...
Engraçado, reflexivo e de prosa ágil. As crônicas são curtíssimas e o livro é diminuto, para ler numa só sentada. E olha, vai ser difícil não amar!

DA EXPERIÊNCIA...
Amei cada página. E promovi às primeiras posições da wishlist De repente, uma batida na porta, aclamada coletânea de contos de Keret que eu já estava querendo muito ler e nem sabia se tratar do mesmo autor – só lembrava daquela capa com o peixinho...

FEZ PENSAR EM...
Outros livros MUITO tops que abordam os conflitos no Oriente Médio de maneira bastante singular: a HQ Persépolis e o bonito Uma Garrafa no Mar de Gaza, ambos adaptados para o cinema.

QUANTO VALE?

Título: Sete Anos Bons
Título original: The Seven Good Years
Autor(a): Etgar Keret
Tradução: Maira Parula
Editora: Rocco
Edição: 2015
Ano da obra: 2015 (crônicas escritas entre 2005 e 2012)
Páginas: 192
Onde comprar: Submarino | Fnac

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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