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Resenha: Trainspotting, de Irvine Welsh

Anos 90 11 de agosto de 2015 Aline T.K.M. Nenhum comentário

Resenha: Trainspotting, de Irvine Welsh

Sabe quando você curte muito um filme e aí, depois de muita enrolação, finalmente se lança à leitura do livro que o inspirou? A expectativa fica lá em cima, né! Foi nesse estado de espírito que me aventurei nas páginas de Trainspotting.

Trainspotting foi o primeiro romance do escocês Irvine Welsh que, ele mesmo tendo sido um junkie, usou seus diários e anotações como base para compor a história de um grupo de amigos drogados na Edimburgo dos anos 90. História que ganhou ares cult ao ser levada para o cinema por Danny Boyle, em 1996, tornando-se um clássico contemporâneo – piro nesse filme!

Início da década de 90. É no submundo de Edimburgo, Escócia, que se desenrola a trajetória de um bando de amigos sem qualquer perspectiva de vida, exceto a de buscar pelo prazer imediato e momentâneo da heroína. Renton, Spud, Sick Boy, Begbie, Segundo Lugar, Madre Superiora; jovens rebeldes, ansiosos por álcool e pelo próximo pico, que se envolvem em confusões e atos de violência, enquanto a sombra da Aids se mantém à espreita.

Renton protagoniza a trama ao narrar o vício desesperado pela heroína, suas tentativas de largar a droga e as inúmeras recaídas, além dos perturbadores períodos de abstinência. Renton é aquele cara não conformado, que busca uma vida diferente daquela que os outros nos dizem para viver e não admite engolir o que a sociedade insiste em nos empurrar goela abaixo. Tem na heroína uma espécie de resposta à ânsia de viver o agora, de sentir e experimentar, de extrapolar limites; ou simplesmente encontra nela uma forma de se anestesiar de um mundo sem esperanças nem conserto. Em outras palavras, busca fugir da banalidade da vida.

No entanto, em seu não conformismo com o curso “convencional” da vida, acaba estagnado em um outro conformismo: o de viver às custas do governo, sem trabalho nem estudo, rejeitando mudanças e mantendo-se à mercê dos efeitos devastadores da droga.

O Iggy Pop olha bem pra mim quando canta: “America takes drugs in psychic defence.”* Só que ele troca “América” por “Escócia” e, com uma única frase, define a gente com mais precisão do que qualquer um já tenha feito...
*“A América usa drogas como defesa psíquica.”


Em sua maior parte não linear, o livro apresenta capítulos que – embora não sejam – até poderiam funcionar como episódios independentes entre si, cada qual contado pela voz de um narrador diferente. Eis aí uma das genialidades do livro, eu diria, por fazer com que o leitor mergulhe no íntimo de cada um dos junkies. Esses narradores não se apresentam de imediato, mas chega uma hora em que os reconhecemos apenas por seu jeito de falar. Genial, sim, mas também um pouco confuso. A sensação que se tem é a de que há um certo caos na estrutura do livro – leva alguns capítulos para nos acostumarmos – o que faz todo o sentido aqui, dada a temática e a própria confusão da vida dos personagens.

A narrativa, muito verdadeira, é caracterizada pelo uso da oralidade. Welsh passou para o papel a linguagem coloquial da classe baixa de Edimburgo que, no original, consiste na combinação do inglês clássico com a variante de um dialeto falado no sul da Escócia e em parte da Irlanda do Norte; isso além da ampla utilização de gírias e referências locais (no fim do livro há um glossário esclarecendo os termos mais específicos).

Trainspotting é, todo ele, mergulhado em sordidez e perversidade. Decerto que há momentos hilários, mas há também a perturbação e a degradação do ser humano. É em meio a vômito, sangue, mijo e merda que os personagens passam seus dias; marginalizados, esses caras se encontram entre o pior desespero e o completo torpor. Sem esquecer o temor da Aids, destino inevitável de algumas pessoas próximas a Renton e aos caras com quem ele anda.

A verdade é que Trainspotting é um livro bastante sedutor em sua temática densa, no linguajar chulo, e até nas passagens nojentas. Embora represente o retrato de uma época, a figura dos jovens amigos que querem tudo e nada é de uma atemporalidade gigantesca. Perder-se na vida e fazer escolhas erradas não é drama nem privilégio apenas da juventude dos 80/90. O sentimento de desilusão para com o mundo não poderia ser maior hoje e, se a válvula de escape não for a droga, pode muito bem ser qualquer outra coisa – e nem precisa ser ilegal. A sociedade segue impondo seus moldes, a ditadura da vida feliz (segundo o consenso coletivo, jamais individual, do que é felicidade) pode ser percebida todos os dias, o preconceito e a marginalização estão aí para quem quiser ver. Pelo menos, o mundo ainda ouve Iggy Pop.

Entre as tantas passagens cômicas, a presença do trágico, críticas à sociedade e trechos dignos de reflexão, o livro traz essa questão de ser dono da própria vida, de estar apto a escolher o próprio destino, seja ele bom ou ruim. E arcar com as consequências dessa escolha, nem sempre previsíveis.

Primeiro de uma trilogia (seguida por Pornô e Skagboys), Trainspotting é um grito à falta de sentido dos dias, à existência banal. É uma história sobre escolhas, sobre a vida e o que se decide fazer dela. Sobre a heroína – o melhor orgasmo multiplicado, mas também a desgraça –, nada mais que uma maneira através da qual esse bando de amigos busca um sentido para as coisas. Um meio que acaba virando um fim. Para muitos, simplesmente o fim.

EM TEMPO: a palavra “trainspotting”, conforme esclarecido no posfácio do livro, pode ser traduzida como “conferindo os trens”, um sentido mais literal que faz referência ao passatempo entre jovens britânicos de passar os dias conferindo se os trens passam por uma estação num horário específico, de acordo com suas tabelas. Ainda, “trainspotting” também se refere a qualquer atividade sem sentido nem utilidade, que seja uma total perda de tempo.

LEIA PORQUE
Trainspotting é aquele combo que fala da juventude, da vida, da morte, da desesperança, da sociedade... sem poupar os leitores de toda a sujeira e feiura que esses assuntos requerem.

DA EXPERIÊNCIA
Já era fã do filme, agora também sou fã do livro. E estou prontíssima para devorar o restante da trilogia!

FEZ PENSAR EM
Quem mais está animado com a provável sequência cinematográfica de Trainspotting? Andei lendo que Ewan McGregor aceitaria participar do filme, que o próprio Irvine Welsh está dando uma mão no roteiro (em colaboração com o roteirista do primeiro) e que as filmagens começariam ano que vem. É esperar para ver.



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Título: Trainspotting
Autor(a): Irvine Welsh
Tradução: Galera & Pellizzari
Editora: Rocco
Edição: 2004
Ano da obra: 1993
Páginas: 352

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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