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Quote da quinzena #33: As Lembranças

À la française 18 de junho de 2015 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Um autor que eu adoro e um livro memorável de tão bonito: As Lembranças, do francês David Foenkinos.

Abordando as memórias de toda uma vida, As Lembranças começa com a morte do avô do protagonista, acarretando a mudança de sua avó para uma casa de repouso. Mas a velhinha resolve fugir. A partir daí, avó e neto estarão mais próximos que nunca, empreendendo uma trajetória rumo às lembranças, reencontrando pessoas e lugares que haviam ficado para trás. Ao mesmo tempo, outras questões são vividas pelo protagonista, como a situação dos seus pais, a vontade de tornar-se escritor e um novo amor que lhe bate à porta...

Simples, delicado e reflexivo; recomendo MUITO a leitura deste livro – e de todos os outros do autor. Aliás, para quem se interessou, há tempos postei 5 motivos para ler David Foenkinos.

Pois digo que os quotes desta quinzena são vários e são especiais, pois resumem muito bem a atmosfera do livro. Agora deixo-os na companhia dos trechos que selecionei:

Meu avô havia sobrevivido à guerra; havia sido ferido logo nos primeiros dias de combate por um estilhaço de granada. A alguns metros dele estava morto seu melhor amigo, esmagado. [...] Eu repenso frequentemente nessa granada que, alguns metros mais perto, teria matado meu avô. Tudo o que vivo, as respirações de minhas horas e os batimentos de meu coração, não deve sua existência senão a alguns metros. Talvez até seja uma questão de centímetros.

A vida é uma máquina de explorar nossa insensibilidade. Sobrevive-se tão bem aos mortos! É sempre estranho dizermo-nos que podemos continuar a avançar, mesmo amputados de nossos amores. Os dias novos chegavam, e eu lhes dizia bom-dia.

Eu ia me enganar tantas vezes com respeito às pessoas em minha vida. Tanto, que chegaria à resolução seguinte: não emitiria mais a mínima opinião sobre uma pessoa antes de ter convivido com ela por pelo menos seis meses. Estava fora de questão que eu me fiasse em minha intuição doentia e certamente gangrenada pelo abuso de devaneio, ou pela simples falta de experiência em matéria de relações humanas.

Finalmente, aquele que decidira pendurar tal quadro era um espírito brilhante. Ele compreendera que a melhor maneira de aliviar-se da feiura é acentuá-la.

Será que, mais perto da morte, eu também terei vontade de assistir ao enterro dos outros? Não teria antes vontade de fugir dessa cerimônia que me espera? As pessoas idosas vão ao enterro dos outros por medo de que não haja ninguém no dia de seu próprio enterro? Seria como uma forma inconsciente de reenvio de elevador preventivo. Enfim, não. Não vejo um morto entregar um convite. Se vamos ao enterro de alguém, ele não poderá vir ao nosso. É uma relação de mão única. Minha teoria não se sustenta.

Por que a burrice é mais memorável que a beleza?

Pensei que era preciso viver as coisas, esquecendo os limites e até a moral. Não parei de sentir desde então a urgência do desejo. De pensar na sensualidade como essência da vida. Parece-me que se ama diferentemente, quando se vive com essa consciência íntima da velhice. Não falo do medo da morte e da bulimia sexual ligada à nossa condição efêmera; não, falo da ideia de acumular, talvez ingenuamente, um tesouro de beleza para os dias de imobilidade física. [...] Pensei então no livro de Kawabata, A casa das belas adormecidas, em que os velhos vão a uma pensão para dormir com jovens mulheres. Já não se trata então de uma questão sexual, mas simplesmente de avançar para a morte com o gosto do paraíso na boca.

Frequentemente ouvi dizer que “um verdadeiro amigo é alguém que podemos chamar em plena noite quando nos encontramos com um cadáver nos braços”. Não sei por quê, mas sempre gostei dessa ideia. Há pessoas que passam o tempo a perguntar-se o que fariam se ganhassem na loteria, e eu me pergunto a quem chamaria no dia em que tivesse de me livrar de um corpo (pois é muito pouco provável que eu ganhe um dia na loteria).

Tudo muda, mas não as campainhas de recreio.

Eu lhe perguntava suas fantasias, e ela cochichava peripécias eróticas em meus ouvidos felizes. Ela brincava de ser minha brincadeira. [...] Era fabuloso esse tempo do erotismo ácido, em que as horas passam tão rapidamente quanto o prazer é prolongado.

As Lembranças, de David Foenkinos

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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