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Remissão da pena [Patrick Modiano]

À la française 8 de abril de 2015 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS


Em forma de romance, a autobiografia do francês Patrick Modiano, Nobel de Literatura 2014, retrata uma infância repleta de lacunas, vivida nos arredores da Paris pós-Segunda Guerra.

Primeiro de uma trilogia composta por Flores da ruína e Primavera de cão (lançados em breve pela ed. Record), Remissão da pena apresenta o pequeno Patrick – ou Patoche, como é carinhosamente chamado – e seu irmãozinho, que vivem em um vilarejo próximo de Paris sob os cuidados de amigas de sua mãe.

É na rue du Docteur-Dordaine que tudo e nada acontece. O que conhecemos é o cotidiano de banalidades, um pouco da vida escolar e da rotina caseira do jovem protagonista. A espera é um sentimento à espreita em cada esquina; a mãe está sempre em turnê com o teatro, já o pai vive viajando a negócios – dos quais nada sabemos com detalhe nem certeza – e visita os garotos esporadicamente. Se voltarão de vez ou não, é enigma que ninguém sabe.

De fato, tudo o que se conhece sobre a vida e a casa em que as duas crianças vivem é o que permite entrever os olhos do garoto Patoche. Das quatro mulheres que habitam a casa, sabemos que a pequena Hélène foi uma amazona e acrobata de circo (afastada da carreira após um acidente); que Annie é jovem, doce e brincalhona, e vai todos os dias a Paris em seu Renault 4cv bege (e muitas vezes não dorme em casa); que Mathilde, mãe de Annie, é meio megera e se dirige a Patoche por “imbecil afortunado”; e que Branca de Neve, a moça que toma conta dos meninos, é silenciosa e dona de um coque preto severo e olhos claros “transparentes”.

A casa é movimentada e os garotos aprenderam a se acostumar com o intenso vaivém. É frequente a visita de amigos, que nos são apresentados como Jean D., Roger Vincent, Frede, Andrée K. Quem são e o que fazem realmente são informações que permanecem turvas, tal como o são na cabeça de Patoche.

Aos poucos, os espaços em branco dominam a trama, narrada em primeira pessoa pelo garoto. Patoche e seu irmãozinho não participam plenamente das coisas na casa; tudo o que sabem se resume a dados soltos captados em conversas alheias, que vão montando e interpretando de acordo com sua mente ainda pousada na inocência infantil. Portanto, o que fica é certa aura misteriosa que envolve a todos, em especial Annie – o que ela faz todos os dias, qual sua real relação com seus amigos? – e, claro, os pais dos meninos, cuja ausência chega a ser inquietante.

A vida de menino aparece intercalada por momentos já como um jovem adulto, estudante vivendo sozinho em Paris e dando início à carreira de escritor, e que acaba por reencontrar pessoas do passado vivido na rue du Docteur-Dordaine.

Com extrema simplicidade, Modiano tece uma vida infantil feita de fragmentos, apoiada na memória e marcada por ausências. A solidão escoa das entrelinhas, bem como o desamparo e um pedaço de infância desprovida de cor. Coloridos são apenas os carrinhos bate-bate, que certa vez maravilharam os irmãos e são tema das conversas antes de dormir. Coloridas também são as visitas do pai e as histórias que ele conta sobre um tal Marquês de Caussade, dono do castelo abandonado que fica nas proximidades da casa dos meninos; e também cheias de cor são as incursões noturnas ao dito castelo, planejadas por Patoche e o irmãozinho.

Remissão da pena não traz respostas – talvez frustre quem as espera. De atmosfera cinzenta e apática, o livro é o que é: memórias de um período em que tudo o que se faz é esperar. O que é desconhecido assim permanece. Nada de artifícios mirabolantes; para preencher o vazio – os vazios, pois passam a ser muitos –, apenas um quê poético e a bonita autenticidade com a qual nos brinda Modiano.

LEIA PORQUE...
De leitura rápida, o livro tem narrativa mais simples do que se espera. Além disso, o cara ganhou um Nobel de Literatura – o que já é motivo suficiente para querer conhecer os seus livros.

DA EXPERIÊNCIA...
Fui surpreendida pela simplicidade e pela singeleza do livro; cheguei à conclusão de que fiz um excelente début na obra de Patrick Modiano.

FEZ PENSAR EM...
Biografias para quem não curte biografia. Este livro tem tudo para entrar na lista!

QUANTO VALE?

Título: Remissão da pena
Título original: Remise de peine
Autor(a): Patrick Modiano
Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto
Editora: Record
Edição: 2015
Ano da obra: 1988
Páginas: 128
Onde comprar: Extra.com.br | Cia. dos Livros | Livraria da Folha | Saraiva | Saraiva (eBook) | Amazon (livro físico) | Amazon (edição Kindle)

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Esse livro parece ser bem interessante! E nossa um autor com um Prêmio Nobel de Literatura, deve ser maravilhosa a escrita e a história. Adorei sua resenha!

    Beijos,
    http://www.girlbeinggeek.com.br/

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    Respostas
    1. Realmente é um livro que vale a pena ler. A escrita me surpreendeu, como disse, pela simplicidade. Enfim, recomendo! ^^ Beijos.

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  2. Livro simples com grande reflexão.
    Agora sim fiquei com vontade de ler.

    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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    Respostas
    1. Simples e muito bom, gostei muito do autor. A reflexão, na verdade, está mais nas entrelinhas mesmo, porque o que a gente encontra é mesmo as lembranças de uma criança que não entende completamente tudo o que acontece em seu entorno. Beijinhos!

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