Em uma só pessoa [John Irving] | Livro Lab
Últimos vídeos    |  Se inscreva no canal
Resenha: Sopa de Lágrimas, de Gilbert Hernandez  3 hábitos musicais de hoje e da minha adolescência  My Little Pony – O Filme: 4 motivos para assistir
Leituras de abril

Em uma só pessoa [John Irving]

Bissexualidade 23 de fevereiro de 2015 Aline T.K.M. 4 COMENTÁRIOS


Aos sessenta e tantos anos, o então escritor William Abbott relembra sua trajetória, desde a adolescência numa escola particular só para rapazes – na cidade fictícia de First Sister, no estado americano de Vermont – até a idade adulta e o amadurecimento. De maneira não linear, o narrador protagonista nos leva a percorrer sua existência (e a busca por uma identidade), marcada pela bissexualidade, pelos múltiplos desejos, pelo teatro e o amor aos livros e à escrita.

Densa, a trama leva o leitor inicialmente à década de 50, quando um William (Billy) de treze anos é acompanhado pelo padrasto para fazer um cartão na biblioteca pública da cidade. De pronto, a bibliotecária Srta. Frost – e seus seios diminutos – desperta no garoto uma paixão avassaladora. É ela quem o inicia na literatura, indicando livros sobre “atrações pelas pessoas erradas”, a pedido do garoto. Essas atrações, ou desejos, deixam Billy um tanto confuso; além da Srta. Frost, o garoto se vê apaixonado pelo padrasto Richard Abbott, pela Sra. Hadley (mãe de sua melhor amiga e terapeuta que trata de sua dificuldade com a pronúncia de certas palavras), e por Jacques Kittredge, capitão da equipe de luta livre da escola.

A ausência do pai, as mulheres extremamente críticas de sua família, e a cidade pequena e conservadora são alguns elementos que exercem influência na vida do garoto Billy, que encontra um pilar de apoio na melhor amiga Elaine e no avô. Vovô Harry é conhecido de toda a população por sempre interpretar papéis femininos no grupo de teatro amador da cidade, e cujo gosto por vestir-se como mulher o acompanhará até o fim da vida.

O teatro, assim como os livros, é uma espécie de válvula de escape na adolescência conturbada de Billy. Atuando nas peças do teatro da cidade e no grupo de teatro do colégio Favorite River Academy, Billy tem uma estreita relação com esse meio: além do avô, sua tia também atua, sua mãe é o ponto eletrônico (pessoa que “sopra” as falas para os atores) e seu padrasto atua, dirige e ensina Shakespeare no mesmo colégio. Não à toa, o livro é recheado de referências e citações shakespearianas e também de Ibsen.

De modo semelhante, a literatura se faz muito presente durante toda a trama. Dickens, a Madame Bovary de Flaubert, o então polêmico Giovanni de James Baldwin... estão todos ali, nas páginas do livro e na vida do protagonista – para o deleite daqueles que curtem “livros dentro de livros”.

A prosa gostosa de Irving é o complemento perfeito para uma trama não tão fácil. Na construção de uma identidade e enquanto busca seu lugar no mundo, Billy muda de ares. Viena, Nova York, San Francisco. São vários os locais e vários os envolvimentos românticos de Billy. Suas aventuras dividem lugar com o preconceito de um mundo que caminha lentamente rumo à aceitação das diferenças. Os transgêneros – muito discriminados – também marcam presença na trama e no cerne das paixões de Billy.

Desta maneira decorrem os anos 70, para então desembocar na década de 80, período em que estourou a epidemia da Aids. Ainda que com certo distanciamento – forma de autoproteção? – Billy testemunha o definhar e a morte de amigos e ex-amantes, ao passo que a carreira de escritor – Billy aborda a diversidade sexual em seus romances – ganha cada vez mais solidez.

Com o passar dos anos, Billy enfrenta uma situação pela qual todo mundo um dia terá de passar: a fragilidade e a morte dos amigos e familiares mais velhos. Dos anos 90 até o ano de 2010 (período do relato do narrador), ele assiste à ruína inevitável de todos aqueles que um dia considerou como uma fortaleza. As certezas e figuras protetoras de sua infância e adolescência dão lugar à velhice e às doenças, parte intrínseca do caminho (muitas vezes tortuoso) da vida.

Labiríntico e cheio de recortes como a própria vida, Em uma só pessoa é um livro para se mergulhar – literalmente – e deixar-se envolver pelas reflexões e pela trajetória do protagonista, num movimento que passa pela confusão e pelo ressentimento, para então chegar à redenção e reconciliação. Com personagens conturbados, o livro fala de diversidade sexual, de identidade e, principalmente, de autoconhecimento e aceitação. E fala de desejo, uma vez que, nas palavras – muito verdadeiras – do narrador, “nós somos formados pelo que desejamos”.

LEIA PORQUE...
Em uma só pessoa está longe de ser uma leitura qualquer, daquelas que vêm e vão sem deixar muitas marcas. Os personagens são repletos de questões mais profundas e a trama faz pensar.

DA EXPERIÊNCIA...
Ótimo romance de formação. A temática, um pouco diferente da maioria das minhas leituras, me agradou enormemente (gosto de profundidade, de abismos). Grata surpresa!

FEZ PENSAR EM...
“Assim, eu sou muitas pessoas em uma,
E nenhuma delas feliz.”
- William Shakespeare, Ricardo II

QUANTO VALE?

Título: Em uma só pessoa
Título original: In one person
Autor(a): John Irving
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Edição: 2014
Ano da obra: 2012
Páginas: 512
Onde comprar: Submarino | Fnac | Saraiva (eBook) | Amazon (livro físico) | Amazon (edição Kindle)

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

Você também vai  

4 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, esse livro parece ser super denso e bastante reflexivo. Acho muito bom quando o autor se propõe a trabalhar os personagens tão profundamente. A temática deve ser bem interessante também, acho que não temos tantas publicações que abordem a sexualidade desse ponto de vista.

    Beijos,
    Camila | www.lendoporai.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, gostei muito dessa temática sobre a diversidade, os olhares enviesados que as pessoas ainda têm. Pois é, o autor trabalha muito bem cada personagem, todos eles têm diversas nuances e ao longo do livro vamos desvendando o seu íntimo. Muito bom, recomendo!

      Excluir

Siga @aline_tkm lá no Instagram!

Parceiros