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Fluam, minhas lágrimas, disse o policial [Philip K. Dick]

Aleph 14 de janeiro de 2015 Aline T.K.M. 6 COMENTÁRIOS


Fama, dinheiro, mulheres. O que acontece na vida de um cara que tem tudo isso em quantidades respeitáveis e que, da noite para o dia, se vê sem nada daquilo que um dia conquistou?

O famoso apresentador de TV e cantor de sucessos pop Jason Taverner acorda sozinho num quarto de hotel mequetrefe, sem saber como foi parar lá. Não demora muito e ele percebe que ninguém mais – fãs, amantes, agentes... ninguém! – o (re)conhece: ele passou a ser um completo desconhecido. E mais, não só se vê destituído de sua vida de celebridade, como tampouco é um cidadão perante a lei. Sem qualquer registro legal de sua existência, é como se Taverner não existisse nem houvesse sequer nascido.

Adentrando a ilegalidade, o ex-apresentador busca por documentos falsificados e foge das autoridades, enquanto tenta decifrar o que ocorreu e encontrar sua própria identidade.

Neste combo de distopia e ficção científica, a trama se desenrola num universo onde o Estado é comandado por uma polícia opressora, vigilante e manipuladora. Os estudantes universitários e os intelectuais são marginalizados e constituem a camada mais baixa da sociedade, sendo enviados para campos de trabalho forçado. Já os negros foram em grande parte eliminados, e seres humanos híbridos (resultantes de modificações genéticas) foram inseridos no meio da população. O próprio Jason Taverner, aliás, é resultado de uma dessas modificações. É um Seis, como é chamado, e conta com atributos como a beleza física e um poder de atração bem acima da média, que fazem com que essa “espécie” geralmente tenha êxito no showbiz.

À parte o conflito central da trama e todo o universo criado por Philip K. Dick, também as personagens femininas merecem atenção especial. Na verdade, não apenas as personagens em si, mas a maneira como são retratadas as mulheres nesse mundo futurista e simultaneamente retrógrado. Elas vão de manipuladoras, pervertidas e egocêntricas, a seres por demais receosos e que despertam a compaixão do protagonista. Cem por cento das vezes, no entanto, elas se revelam únicas, marcantes e inesquecíveis.

Fluam, minhas lágrimas, disse o policial mexe com os sentidos e bagunça a percepção do real, tanto dos personagens como do próprio leitor. Chega a ser inevitável, em algum momento da trama, o questionamento da realidade do protagonista – será que ele é mesmo quem acredita ser?

Assim como nos contos de Realidades Adaptadas, aqui também somos tomados pelo sentimento paranoico da dúvida. Muito mais do que mergulhar no fascínio próprio da distopia e da ficção científica – o autor não se demora muito em explicações sobre o universo criado –, alcançamos as profundezas do ser humano e os questionamentos acerca de suas percepções. Afinal, o que é a realidade? E o que faz de alguém um ser humano?

Gente geneticamente modificada, drogas de efeito duvidoso, uma polícia que não preza muito pela ética; tudo isso misturado a turbulências humanas nos mais variados níveis – identidade, incesto, senso de justiça – são elementos de uma trama saborosa e lancinante a um só tempo. Trama cujas fronteiras de realidade e de percepção permanecem numa turbidez que nem a imaginação mais fértil seria capaz de conceber.

LEIA PORQUE...
O livro é viagem do começo ao fim! Soma-se a isso a narrativa objetiva e sucinta de Philip K. Dick, questionamentos filosóficos e uma sociedade situada – algo deslocada, é verdade – em algum lugar entre o futuro e o passado. Como se não bastasse, ganhou o prêmio John W. Campbell em 1975 como melhor romance de ficção científica. Leitura obrigatória, sem dúvida.

DA EXPERIÊNCIA...
Os questionamentos e conflitos dos personagens são universais e facilmente transportados para a nossa realidade. É aquele livro que a gente quer muito saber como termina, e ao mesmo tempo não quer que chegue ao fim tão cedo.

FEZ PENSAR EM...
Inevitavelmente, no clássico distópico 1984, por aspectos como a opressão e a vigilância, e a marginalização daqueles que podem ter algum poder de transformação.

QUANTO VALE?

Título: Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (publicado pela primeira vez no Brasil, nos anos 80, com o título “Identidade Perdida: O Homem Que Virou Ninguém”)
Título original: Flow my tears, the policeman said
Autor(a): Philip K. Dick
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Aleph
Edição: 2013
Ano da obra: 1974
Páginas: 256
Onde comprar: Fnac | Submarino | Saraiva

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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6 COMENTÁRIOS

  1. Achei esse liro a minha cara, ou a cara das coisas que eu costumo ler haha, vai pra wishlist ♥ obrigada por indicar.

    http://gotasdecaffe.blogspot.com.br/
    Cecilia Mesquita
    xxx

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    Respostas
    1. E com certeza você não vai se arrepender!!! Quando tiver lido, passa aqui para dizer o que achou! =)

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  2. Oi Aline, adoro suas dicas. Você sempre trás livros bem diferentes para o mundo literário, esse é sem dúvidas mais um que me interesso. Eu adorei essa capa, a história me chama bastante atenção: às vezes batemos de cara com a vida e perdemos tudo da noite pro dia, isso deve ser angustiante de certo modo e deve ser "gostoso", se assim posso chamar", acompanhar o que esse personagem fará. Gostei muito da temática!

    Beijão (ou abração), www.setecoisas.com

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    Respostas
    1. Oi, Igor! Obrigadaaa! ^^ Pois é, além de todo esse conflito interior do personagem, de perder tudo o que ele conhecia como sendo parte de sua vida, tem toda a parte de sci-fi mesmo e o universo distópico em que tudo está inserido, o que dá um sabor imensamente delicioso ao todo É um excelente livro, sem dúvida! Bjs!

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  3. Mais um pra listinha! Fiquei com mais vontade depois do review, temas interessantes e um pouco tenso abordados na obra com certeza irei conferir muito em breve.

    Abs
    http://tediosoc.blogspot.com

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    Respostas
    1. Amanto!! Leia sim, vale muito a pena! Dá para viajar legal com esse livro, eu amei e estou curtindo ficção científica cada vez mais! Bj.

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