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Quote da quinzena: Águas-fortes cariocas

Crônicas 23 de novembro de 2015 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Um dos livros que mais curti da sensacional coleção Otra Língua, da editora Rocco, Águas-fortes cariocas traz uma série de crônicas publicadas originalmente em 1930 pelo escritor argentino Roberto Arlt durante sua estada no Rio de Janeiro.

Se tudo começou com o encantamento, à medida que avançam os textos vemos um Rio de Janeiro bastante criticado – quando aos seus hábitos, cultura, população – e até comparado a Buenos Aires. Arlt se dá conta dos inúmeros problemas sociais da Cidade Maravilhosa e despeja comentários ácidos no papel, tudo com muita fluidez. O resultado? Não conseguimos desgrudar os olhos do livro até devorá-lo por completo.

Depois desta breve “propaganda” do livro – foi uma leitura de que gostei muito, muito mesmo – deixo vocês com alguns trechos que eu havia selecionado aqui e ali durante a minha leitura. Sério, o livro é muito bom, assim como tudo o que li da coleção Otra Língua – vejam tudo o que já postei sobre ela aqui. Recomendo sem pensar duas vezes.

Não tenho plano nenhum, não levo guia nenhum. A única coisa que levo na minha mala são dois ternos. Um terno para lidar com pessoas decentes e outro caindo aos pedaços, com um par de alpargatas e um chapéu desmilinguido.

Quero me misturar e conviver com as pessoas dos bas-fonds que infestam as cidades do ultramar. Conhecer os cantos mais sombrios e mais desesperados das cidades que dormem sob o sol do trópico. Quero contar a vocês como é a vida nas praias cariocas; as garotas que falam um espanhol estupendo e um português musical. Dos negros que têm seus bairros especiais, dos argentinos fantásticos que andam fugidos pelo Brasil; dos revolucionários disfarçados. Que montão de temas para crônicas nessa viagem maravilhosa que me faz escrever na Underwood de tal maneira que até a mesa treme sob a trepidação das teclas!

Mulheres, corpos túrgidos envoltos em tules; tules de cor lilás cobrindo mulheres cor de cobre, cor de bronze, cor de nácar, cor de ouro... Porque aqui as mulheres são de todas as cores e matizes do prisma. Há mulheres que tendem ao tabaco claro, outras ao rímel, e todas envoltas em tules, tules cor de cravo e rosa. Tules, tules...

Voltando às casas [...], este conjunto uniforme, pintado do que eu chamaria de cores azedas e marítimas, porque têm a mesma brutalidade que o azul das camisas estilo marinheiro, produz de noite uma terrível sensação de tristeza, e de dia algo parecido com uma festa permanente. Festa rude, quase africana; festa que depois de um tempo assistindo nos cansa os olhos, deixando a gente aturdido, mareado de tanto colorido.

Outro senhor poderia extrair das ruazinhas torcidas do Rio um poema maravilhoso. Quanto a mim, o poema e a ruazinha me enfadam. E me enfadam porque falta o elemento humano em seu estado de evolução. A paisagem, sem os homens, me aporrinha. As cidades sem problemas, sem anseios, e os homens sem questões psicológicas, sem preocupações, me oprimem.

Trechos retirados do livro Águas-fortes cariocas, de Roberto Arlt.

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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