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Patty Diphusa [Pedro Almodóvar]

Anos 80 8 de novembro de 2014 Aline T.K.M. Nenhum comentário


Nos próximos números terei a ocasião de abrir meu coração pra vocês, porque uma sex symbol internacional também tem coração.

Début do cineasta Pedro Almodóvar nos livros, Patty Diphusa foi publicado originalmente na forma de uma série de contos na revista espanhola La Luna.

Madri, anos 80. Período fervilhante, tal como o é Patty Diphusa, a estrela pornô que narra e protagoniza os textos deste livro. Convidada a relatar suas memórias, Patty só escreve sobre o que domina: ela própria; o que não deixa de ser original, pois – constatação sagaz – ninguém nunca havia escrito sobre ela antes.

Tão intensa quanto fugaz, Patty é um retrato da década de 80 e, mais especificamente, da Movida Madrileña – ou “La Movida”, o movimento de contracultura que marcou toda uma geração nos anos 80. Após décadas de ditadura, a ânsia espanhola de liberdade de expressão desembocou no hedonismo e extravagância desse movimento artístico e social, que teve Almodóvar como um dos principais símbolos. Epicentro de tal cultura revolucionária, excêntrica e alternativa, Madri (mais ou menos como Nova York) era o lugar onde tudo acontecia e onde todo mundo queria estar.

Patty é direta e desbocada, politicamente incorreta e com orgulho. Patty é pornográfica – claro! Mas nada daquela atmosfera de romance erótico, não; a personagem daqui usa e abusa do chulo, do escrachado, e não hesita em lançar mão do palavreado baixo. Essa é a graça de lê-la! O que faz o leitor rir não é nem tanto o que lhe acontece nem suas mais loucas peripécias, mas a própria Patty: a maneira como é, pensa, fala, age.

Patty é narcisista e prática também. E gosta de mexilhões. Sua energia toma o leitor de tal maneira que é possível mesmo imaginá-la em ação, além de se criar uma perfeita imagem mental de sua aparência e indumentária.

Almodóvar presenteou os espanhóis, e então seus fãs mundo afora, com uma personagem tão cheia de vida e real, que ler seus textos é algo como adentrar a intimidade de uma das mulheres de suas películas. Descoladíssima, Patty adquiriu voz própria – ainda que fosse o alter ego de seu autor antes da fama internacional. Sempre com uma visão otimista e um tanto louca acerca de tudo (até mesmo ao ser violentada), ela me trouxe Kika à memória logo de cara. A espevitada e hilária protagonista do filme que leva seu nome, aliás, dá as caras mais para o fim do livro e até conversa com nossa querida Patty.

No entanto, assim como La Movida, Patty também vai minguando – já disse no início que ela é fugaz. Sua melancolia (a Profunda Depressão dos anos 90) e a falta de palavras faz com que chegue a tirar satisfação com quem lhe deu a vida, seu autor, Pedro Almodóvar. Ao que parece, ele está muito ocupado com outra: Kika, justamente.

Mas a culpa dessa “seca” não é de sua “irmã gêmea” Kika, nem são suas capacidades que foram subestimadas. É só que seu tempo passou. E é melhor não contestar nem provocar: sempre há um assassino pronto para liquidar personagens que já não têm o que fazer...

- Não quero que as pessoas reflitam por minha culpa! Quero trepar! Quero ser frívola e banal! Quero voltar a me drogar!!
- Não dá, Patty. Estaria ou morta ou inédita.
[...]

LEIA PORQUE...
Leitura leve e hilariante, Patty Diphusa surpreende pela vivacidade da personagem e pelo retrato da Madri dos anos 80. Ainda mais especial para quem é fã do trabalho de Almodóvar.

DA EXPERIÊNCIA...
Adorei a irreverência, a loucura e a falta de pudor da protagonista. Dei risadas sinceras – e isso não é algo que os livros me provocam com tanta frequência.

FEZ PENSAR EM...
As loucuras de Pepi, Luci, Bom, filme de estreia de Almodóvar e que é também um registro da década de 80 e de La Movida. E, claro, Kika, filme que adoro e que traz uma protagonista inesquecível.

QUANTO VALE?


Título: Patty Diphusa
Título original: Patty Diphusa y otros textos
Autor(a): Pedro Almodóvar
Tradução: Ana Luiza Beraba
Editora: Azougue Editorial – coleção Devassa
Edição: 2006 – 2ª edição
Ano da obra: 1991 (compilação dos textos, publicados originalmente na década de 80 e, depois, em 1993)
Páginas: 144
Onde comprar: Saraiva | Amazon (livro físico)

Aline T.K.M.
Criou o Livro Lab há 7 anos e blogar é uma das coisas que mais ama fazer, além do teatro, da dança e dos mais variados tipos de expressões artísticas. Tem paixão por viajar e conhecer outras culturas. Ah, e ama ler em francês!

 

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